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"Se eu encontrasse Padilha na rua imploraria por dois dedos de prosa. Usaria de todos os meus recursos para convencê-lo de que seria rápido. Encontraria um lugar preservado, sentaria com ele na mesa dos fundos, pediria um café com leite médio e então... Veja bem, eu teria um homem muito interessante na minha frente, um documentarista de grande talento e visão, um cara que sabe fazer denúncia. Portanto, pouparia-o deste blá, blá, blá, que vivem repetindo na imprensa: É facista ou não é? E a pirataria? Você fuma maconha? Nem mesmo tentaria convencê-lo de que Capitão Nascimento é um herói, coisa da qual eu tenho certeza... Não, eu não sou fascista, nem malufista. Na minha família não há registro de general. Pelo contrário, tenho conhecidos queridos que sofreram na pele as torturas da ditadura. De tempos em tempos, levantei bandeiras vermelhas, sonhei com o socialismo, sou da geração saltimbancos. Mas é que na noite que eu vi Tropa de Elite, saí do cinema com aquele chumbo no peito, aquele medo, a cabeça a mil... Deitei e sonhei que c. Nascimento dormia ao meu lado, com farda, mas com cara de anjo. Acordei assustada e me veio o pensamento: Coitado! Ele sofria cometendo aquelas atrocidades... Coitado! A família, o filho. E aquele menino que ele foi buscar o corpo? Quer dizer que ele é sensível?... E a coragem, o poder de fogo... Nascimento é o máximo!... Mas não é isso que eu diria a Padilha, é claro, isso é íntimo coisa que só se diz no quarto escuro, ou no banheiro. Talvez eu falasse sobre o esfacelamento da polícia, sobre a fragilidade da Ong, sobre a necessidade de alguma solução, algo que realmente tivesse força, como o... Bope? Os caras são poderosos, passam por um processo de seleção bem mais complicado e penoso do que a medicina da Usp, não são corruptos!... E além disso também tem alma! Não, não poderia falar assim, afinal o Padilha não aguenta mais esse papo, e eu, confesso, fico envergonhada de elogiar o Bope, é contra meus princípios. Afinal o que dizer pro cara? Tem que ser rápido, ele tá na minha frente, o café está esfriando... Então eu diria de uma vez só: De duas uma: Ou você sabe o que fez, construiu um herói... E não venha com esse papo de que Nascimento titubeia, que ele quer sair do bope... Papo furado. Bem, construiu um herói e com isso atingiu grandes massas, lançou polêmica, ou o tiro saiu pela culatra, isto é, você queria mostrar uma situação catastrófica, sem saída, na qual muitos encontraram uma saída. Infelismente, a solução reaça, aquela que você não concorda! Pronto! Tá dito. Só dizer já seria suficiente. Mas se ele topasse responder e esticar o tempo da conversa... Iríamos da guerra do tráfico no Rio, passando por todos os temas envolvidos, até a mitologia grega com seus heróis sanguinários e perturbados...
Padilha, vamos tomar um café?
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