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W.E. - O Romance do Século
W.E. (Inglaterra/2011)
crítica por Matheus Pannebecker
Nunca devemos colocar a mão no fogo por atores ou cantores que resolvem virar diretores. De vez em quando, a ideia dá certo e temos maravilhosos trabalhos de astros como George Clooney ou Sean Penn, por exemplo. Só que, na maioria das vezes, o resultado está muito longe de ser admirável. E, em 2011, pelo menos duas artistas artistas sem grandes experiências atrás das câmeras resolveram se arriscar no ramo. Guiadas pelo egocentrismo, Angelina Jolie e Madonna contaram histórias de amor proibidas que desafiaram épocas. Ambas apresentaram filmes complemente problemáticos. E a primeira dessas decepções já chegou em território brasileiro: "W.E. – O Romance do Século", comandado pela rainha do pop.
Madonna está pouco preocupada com dinheiro (tem a música para isso). Por isso, ela quer, na verdade, alcançar status com "W.E. – O Romance do Século", filme que é cheio de traços que sempre foram muito presentes em sua carreira musical. E, de fato, "W.E." parece uma canção pop: tem uma produção legal e um estilo interessante - mas, no fundo, tudo isso é mero disfarce para um conteúdo óbvio repleto de mensagens batidas. Esse é o segundo filme de Madonna (o primeiro foi "Filth and Wisdom", que passou despercebido por aqui) e, em sua nova investida, ela parece ter se dedicado de corpo e alma ao projeto: "W.E." tem produção requintada, enquadramentos diferentes e uma grande vontade de surpreender. Só que Madonna não tem cacife para isso. Música é música, filme é filme. Com tanta glória em sua carreira musical, ela não precisava da pretensão de também querer ser cineasta.
Em muito a direção de Madonna quer reproduzir todo aquele grande impacto visual que Tom Ford apresentou em "Direito de Amar". E podemos dizer que, nesse aspecto, ela alcança alguns pontos positivos. Só que o problema maior aqui não é a direção e sim o roteiro. Escrito por Madonna, em parceria com Alek Keshishian, o texto de "W.E." é cheio de irregularidades. Não devemos nem levar em consideração o fato do filme narrar com desleixo duas histórias paralelas que se comunicam – até porque qualquer conexão profunda ou sutil entre elas está anos-luz do estupendo resultado alcançado em "As Horas", por exemplo. As falhas se encontram, antes disso, nas próprias histórias, separadamente. E elas merecem comentários individuais.
A primeira, que traz os conflitos reais (para quem não lembra, acompanhamos a história do irmão do personagem de Colin Firth em "O Discurso do Rei"), é a storyline que, sem dúvida, mais interessa. Por outro lado, a trama deixa a sensação de que não deveria contada em cápsulas, esquivando-se de cenas que seriam fundamentais para a intensidade dramática do filme. Assim, nunca vemos como foram as separações dos casais ou os detalhes dos problemas que o tal relacionamento proibido trouxe para a família real. É tudo muito básico e pouco aprofundado – sem falar que é difícil criar conexão com a história, já que ela é constantemente interrompida pela outra, narrada nos dias atuais.
Por sinal, a história contemporânea é um dos pontos mais fracos de "W.E. – O Romance do Século". Já devemos partir do pressuposto que é difícil torcer por uma protagonista completamente inerte perante o violento e abusivo marido. Ele espanca a esposa, deixa bem explícito que a trai e não tem a mínima ideia do que é tornar um matrimônio agradável. O que ela faz? Apanha, chora e… vai para uma exposição todo santo dia! Lá ela se sente completa, encontra uma amizade esperançosa e, claro, se dá conta que precisa ir até Paris para se encontrar na vida. Claro, nos filmes, quase ninguém sofre na pobreza. Todo mundo pode sofrer em Paris. É de dar pena, portanto, que a talentosa Abbie Cornish tenha amargado essa personagem tão vazia.
Essa falta de diálogo entre as duas histórias, a inverossimilhança de uma e o tratamento raso da outra são quase insuportáveis. Quase. Quase porque Madonna não é boba. Como roteirista, ela realmente pode ser fraquíssima, mas ao criar impacto visual ela não é (e nunca foi) incompetente. Pelo contrário. No mínimo dois aspectos de "W.E. – O Romance do Século" são dignos de muitos elogios. O primeiro é o belo trabalho de Abel Korzeniowski na trilha sonora, trazendo composições ímpares que confiram o talento inigualável que ele já havia apresentado em Direito de Amar. O segundo é o figurino criado pela conceituada Arianne Phillips, que concorreu ao Oscar e deveria ter sido coroado pela elegância e sutileza.
Assim, é de se lamentar que tais aspectos e um visual tão interessante ilustrem um roteiro mal desenvolvido. Infelizmente, "W.E. – O Romance do Século" não é um filme envolvente. E poderia ser. Deveria ser. Madonna, aqui, deve aprender uma valiosa lição: no mundo da música, ela pode fazer o mais fraco dos cds e ainda assim ter um público que vai escutá-la e elogiá-la, seja pela admiração incondicional ou pelo simples fato de que um cd, na maioria dos casos, não toma mais do que 90 minutos de alguém. No cinema não é assim. Não basta ser Madonna na sétima arte. Errar na música é mais perdoável e inofensivo. Não é qualquer um que vai sentar em uma sala de cinema durante duas horas e ter paciência para procurar aspectos elogiáveis só para defender "W.E." em função do nome da rainha do pop. A dinâmica é diferente, Maddie!
crítica por Clênio Viégas
A primeira coisa que é preciso ter em mente quando se propõe a uma sessão de "W.E. - O Romance do Século" é o fato de Madonna ter contra si a imensa má-vontade dos críticos e da própria indústria do cinema. Salvo raríssimas exceções - e mesmo assim longe de uma margem confortável de elogios - a estrela pop é sistematicamente bombardeada com uma animosidade quase inexplicável sempre que tenta a sorte na sétima arte. Um exemplo claro e insofismável dessa antipatia generalizada pela ex-mulher de Sean Penn e Guy Ritchie - ambos bem-sucedidos nas carreiras de cineastas - foi a forma violenta com que seu novo filme como diretora foi recebido de forma quase unânime. Malhado impiedosamente pela crítica, "W.E" não mereceu toda essa enxurrada de pedras. Mesmo que esteja bem longe de ser uma obra-prima - e também peque em alguns itens cruciais - a história de amor entre o rei Eduardo VIII e a americana divorciada Wallis Simpson é contada por Madonna com um senso estético e um refinamento que revelam que suas três décadas como estrela de videoclipes lhe ensinaram muita coisa.
Fotografado com requinte e sutileza pelo alemão Hagen Bogdanski, "W.E" começa com uma cena de inegável impacto, quando Wallis (Andrea Riseborough) é violentamente espancada pelo primeiro marido durante a gravidez. Essa cena - aparentemente desnecessária - fará eco mais tarde com a situação triste vivida pela jovem Wally Winthrop (Abbie Cornish), que passa por uma séria crise em seu casamento justamente por desejar ardentemente um bebê. Wally - assim batizada justamente porque sua mãe era fã da famosa Wallis - é a verdadeira protagonista do filme, deixando o romance entre a americana à frente de seu tempo e o rei que abdicou do trono por amor (e o deixou com o irmão, protagonista do filme "O Discurso do Rei") quase como uma trama secundária que comenta (às vezes sem a força necessária) a trajetória da Wally contemporânea e seu tímido romance com Evgeni (Oscar Isaac), o segurança russo do museu onde acontece uma exposição sobre o célebre casal. E é justamente essa opção do roteiro - escrito pela cantora e por Alek Keshishian, que a dirigiu em "Na Cama com Madonna" - que acaba sendo sua maior e mais crítica falha.
Ao dividir a atenção em duas histórias que não precisariam necessariamente estar conectadas - ao menos de forma tão frágil - Madonna tira o foco daquela que poderia ser a trama mais interessante e que dá título a seu filme. A história de amor que abalou a realeza inglesa é contada de maneira um tanto confusa e superficial, obrigando a plateia a adivinhar certos acontecimentos e encontrar-se sozinha no emaranhado de imagens que sublinham a ligação entre as duas protagonistas. Demora um pouco para que o público finalmente perceba as intenções do roteiro e essa confusão é quase fatal, em especial para uma audiência não exatamente acostumada a pensar. Prejudicado ainda pelo fato de não ter astros de primeira grandeza em seu elenco - Ewan McGregor chegou a ser confirmado como Eduardo VIII mas teve de cair fora por problemas de agenda - o filme rendeu pouco mais de 500 mil dólares no mercado americano contra seu custo estimado de 15 milhões (bancados pela própria Madonna), o que apenas reitera o desprezo do público pela Madonna cineasta.
Apesar de ter custado barato, porém, "W.E" em nenhum momento passa essa impressão. Cuidadosamente produzido - chegou a concorrer ao Oscar de figurino e rendeu à cantora uma indicação ao Golden Globe pela bela canção "Masterpiece" - e visualmente excitante, é um produto que seduz sua audiência pela sutileza e pela delicadeza. Vindo de Madonna - não exatamente um exemplo de discrição - não deixa de ser positivamente surpreendente.
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