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O Show de Truman, O Show da Vida
The Truman Show (EUA/1998)
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"A história de uma vida."
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Apesar de adorar “O Show de Truman” e de considerá-lo um dos melhores filmes feitos na última década, é preciso admitir que ele não é um filme Cafri. Muito pelo contrário: se não fosse pela presença do astro Jim Carrey em seu elenco, eu diria que ele está no limite do filme cult. Sua discussão profunda sobre a vida das pessoas, sobre o fenômeno da mídia e sobre o que consideramos real é altamente filosófica e cheia de significados. Enfim, não dá para você alugar este filme, sentar na sua poltrona, comer baldes de pipoca, rebobinar a fita e ir dormir. Ele te faz pensar. E, se isso o faz um grande filme, também o tira da lista de “puro entretenimento”. Truman Burbank (Jim Carrey) vive na bucólica cidadezinha litorânea de SeaHeaven , trabalhando em uma empresa de seguros, com um casamento aparentemente feliz com a enfermeira Meryl (Laura Linney) e com amigos e vizinhos que gostam muito dele. A única coisa que difere Truman dos outros milhões de norte-americanos classe média é que a única coisa real que existe em SeaHeaven é ele mesmo. Todo o resto, desde as pessoas mais próximas até os pedestres, são atores contratados para dar-lhe a ilusão de falsa realidade e a cidade não passa de um imenso cenário, o maior e mais tecnológico já construído pelos homens. Seu diretor Christof (um ótimo trabalho de Ed Harris) observa e comanda tudo através de um estúdio que monitora todas as 5000 câmeras existentes na cidade e ele (e toda sua equipe) fica escondido atrás da bela lua que permeia o céu artificial da noite de SeaHeaven. A vida de Truman é televisionada 24 horas por dia e ele é o primeiro homem que, há 30 anos, tem sua vida completamente controlada pelos outros. Todas suas decisões são acompanhadas e até seus interesses amorosos e suas relações familiares foram praticamente “impostas” pelo diretor do programa. O único problema é que Truman não pode sair da cidade (afinal isso significaria o fim do programa) e toda a produção se esforça para mantê-lo lá, como um prisioneiro. Desde traumas com a água (criados por cenas chocantes em sua infância) até doenças de sua mãe, tudo é inventado e colocado perfeitamente em sincronia para que Truman nunca pense em abandonar sua idílica vida. E o filme começa justamente no momento em que ele passa a desconfiar que sua vida não é real. Na minha singela opinião, este roteiro (assinado por Andrew Niccol de “Gattaca”) é de uma genialidade impressionante. E o modo como Peter Weir conduz a trama é tão interessante quanto o roteiro. Ele enche o filme de metáforas e utiliza uma impressionante direção de arte para convencer o espectador de que realmente é possível estarmos vivendo uma vida artificial sem perceber. E cada toque de mestre que o diretor acrescenta só faz crescer no filme, esta discussão tão pertinente (e tão atual) no mundo em que vivemos. Não a toa, “O Show de Truman” foi considerado um dos 10 filmes que redefiniram o cinema nos anos 90. O culto à celebridade, a vida íntima das pessoas, a curiosidade mórbida que temos na vida de nossos vizinhos são sintomas que geraram desde programas como “No Limite” até os famosos repórteres “paparazzi”, outro fenômeno extremamente contemporâneo. É de incrível inteligência, por exemplo, quando no meio do filme um dos personagens anuncia um produto para as câmeras (afinal, se a vida é um programa de TV ela precisa de “merchandising” para se manter viva) ou quando o diretor aparece interferindo na cena, com sugestões como “aumente a neblina”, “abaixe a música”, “dê mais brilho ao pôr do sol”, transformando Truman (e quem sabe, nós mesmos) em uma marionete deste mundo criado pela mídia. Outra interessante curiosidade são os nomes dos dois personagens principais: Truman por exemplo é uma união das palavras “True” e “Man” que em inglês significam “homem verdadeiro”. E Christof, o diretor, é derivado da palavra “Christ” ( ou “Cristo”) como se ele fosse o verdadeiro Deus deste mundo por ele criado. Com todas estas qualidades, o filme ainda proporcionou a Jim Carrey um papel que mostra que seu talento vai muito além das caretas e do exagero que ele demonstrou em filmes como “Debi & Lóide”. Este filme é um divisor de águas na sua carreira e, se o Oscar não reconheceu seu trabalho (e nem sequer indicou o filme na categoria principal) só mostrou como a “nata” desta indústria não está aberta a filmes verdadeiramente interessantes. O final, então, é de chocar. Mostra, em sua última cena, como todos somos descartáveis, como a vida só interessa realmente àqueles que fazem intimamente parte dela. Christof mesmo diz: “a vida real não é menos assustadora que a vida que você tem aqui dentro. São as mesmas mentiras, as mesmas decepções. Só que aqui, eu garanto que tudo dará certo”. E nas nossas mentes, nós pensamos e refletimos: O que é real? o que é ilusão? Afinal, se nossa vida pode mesmo ser uma mentira, nós somos apenas a imensa propaganda de nós mesmos. E isso, Meu Deus, é de gelar a espinha.
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Plínio Meirelles
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