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O Silêncio dos Inocentes
The Silence Of the Lambs (EUA/1991)
crítica por Gustavo Catão
Clarice Starling é uma aspirante a agente do FBI com um objetivo: trabalhar no Departamento de Estudos de Comportamento com o Dr. Crawford. Quando ela é convocada para ajudar o doutor fazendo o perfil psicológico de um psicopata detido a mais de 8 anos, ela se prepara para dar o melhor de si. Mas a jovem Clarice não esperava que, do outro lado das grades (ou, mais especificamente: do vidro) estaria o famoso psquiatra Hannibal Lecter, o canibal. Com poucas palavras, o ex-psiquiatra tem total domínio sobre o diálogo com a estagiária, por mais que ela tente não ceder às suas pressões. O Dr. Lecter promete à Clarice ter informações sobre Buffalo Bill, um serial killer que está raptando mulheres e devolvendo seus corpos, dias depois, esfolados. Inicia-se então um estranho relacionamento entre Clarice e Lecter, que, em troca das informações sobre o assassino, pede à Clarice que lhe diga sobre seu próprio passado (saudade do trabalho? ou algo mais profundo?). Clarice corre contra o tempo para conseguir salvar a última vítima de Buffalo Bill, a filha da senadora do estado do Tenesse. Para complicar ainda mais, o Dr. Chilton, chefe da Instituição onde Lecter está detido, oferece a ele ser transferido para outra cidade, se disser qual o nome de Buffalo Bill e onde ele está. E Lecter aceita... se Chilton o levar até o Tenesse.
Baseado na obra de Thomas Harris, “O Silêncio dos Inocentes” está para os filmes de serial killer, assim como “O Poderoso Chefão” está para os filmes de máfia. Não existe crítico que não considere este um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos. Além de amealhar um bando de Oscars, este filme também foi o grande passo na carreira de Jodie Foster, que a partir daí passou a ser considerada uma das grandes atrizes de Hollywood (ela está excelente!). Mas, mais que isso, este foi o palco onde Anthony Hopkins pôde criar um dos mais assustadores personagens de toda a história do cinema: o Dr. Hanibal Lecter. A fantástica atuação do ator inglês leva o espectador a sentir calafrios só de ver aquele tranquilo psiquiatra atrás de sua parede de vidro. O clima tenso de toda a história fica por conta dos comentários do Dr. Lecter, guiando Clarice pelas pistas do assassino. “O Silêncio dos Inocentes” amealhou os merecidíssimos Oscars de Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Diretor (Anthony Hopkins, Jodie Foster e Jonatham Demme, respectivamente), e também o Oscar de Melhor Filme, e o Oscar de Melhor Roteiro adaptado para Ted Tally.
Nossa recomendação aqui na Confraria? Nunca perca uma oportunidade de assistir a essa obra-prima do suspense, e ao Dr. Hannibal Lecter, nosso canibal favorito.
crítica por Cristiano Contreiras
O Silêncio dos Inocentes definiu os pilares da morbidez humana num thriller psicológico pungente, denso. O filme estabeleceu uma nova percepção à intimidade psicótica, ao âmbito da atmosfera misteriosa de um serial-killer. Adaptado do livro de Thomas Harris, recebeu o tratamento cuidadoso da direção visceral de Jonathan Demme.
A trama foca na aspirante a agente do FBI, Clarice Starling (Jodie Foster) — seu desejo é fazer parte da equipe do Departamento de Estudos de Comportamento com o renomado Dr. Crawford (Scott Glenn). Então é incumbida de traçar um perfil psicológico de um psicopata detido há anos, o psiquiatra canibal Hannibal Lecter (Anthony Hopkins). A relação de ambos se sustenta num jogo perigoso, dúbio e intenso de diálogos afiados. Lecter promete conceber informações sobre Buffalo Bill (Ted Levine), um serial-killer que rapta mulheres para devolver os corpos, dias após, esfolados. Introduz-se um estranho relacionamento entre a agente e o canibal.
E é nesse sentido que o filme garante o seu melhor argumento. O que há de tão aterrorizante e fascinante em Lecter que atrai a atenção de Clarice? Como se sustentará o embate psicológico desses dois? Sob uma esfera de suspense intimista macabro, com leve tom dramático, o filme é ainda mais assustador por tecer contextos da psicopatia, traumas de infância, canibalismo e também transexualismo. O tom de perseguição policial é condicionado a segunda posição, a trama psicológica do par central é prioritária, condicionamento excitante.
É instigante observar o quão provocativo é o roteiro, pois ele converte a perversão sutil em evidenciar uma química-sexual do entrosamento gradual entre Clarice Starling e Hannibal Lecter. É um delírio macabro existir uma intimidade maior de um psicótico canibal com uma agente? A relação de ambos se sustenta na dualidade de comportamentos, personalidades. Existe em Lecter um dom de manipular psicologicamente as pessoas, para tanto ele consegue penetrar no universo de Clarice — usa dos traumas dela de infância, como a morte do pai, para obter uma aproximação maior. Enquanto a agente ansia por informações que a ajude capturar o serial-killer à solta, ela própria manifesta sua fragilidade em conversas íntimas estabelecidas por Lecter.
O roteiro figura seu foco argumentativo em cenas de diálogos dos dois, particularmente é a maneira de providenciar o senso psicológico que o filme traça ao longo de sua duração. O esqueleto principal centra-se na maneira como se providencia a aproximação de Lecter com Clarice. O que será que nele fascina tanto para tentar seduzi-la com palavras irônicas? Lecter desnuda a aparente fragilidade e segurança de Clarice, torna-se o mentor dela, desconstrói a moça a ponto dela mesma permitir-se aos seus jogos estranhos. Quid pro quo.
Interessante que Lecter assusta pela frieza com que exerce sua transparência comportamental psicótica, mas ainda assim exerce um certo cavalheirismo diante de Clarice — é nesse sentido que ambos se prestam a uma relação que é só fortalecida pela troca de diálogos. Lecter capta os tons íntimos de Clarice, deflora sua infância e a torna mais segura para atuar no seu terreno profissional. Ela percebe a tônica irônica, sádica e obscura do homem que perfura sua alma. Hannibal é aliado e também serpente capataz no terreno da agente Starling, mas é seu poder persuasivo que prevalece. E Jonathan Demme extrai os jogos manipulativos do canibal com as interferências femininas da agente, num exercício intrigante, avassalador. Os diálogos são sempre invasivos, ardilosos.
O tom da sexualidade reveste o tenso roteiro. Há na construção de Lecter um artifício malicioso: o personagem tenta seduzir Clarice de diversas maneiras, com palavras libidinosas, provocações ou diante de seu incisivo olhar felino que indaga a moça com questionamentos do passado. Há o desenvolvimento da situação do personagem serial-killer Buffalo Bill, um homem em desacordo com sua condição masculina, homossexual, insatisfeito com o corpo e forma física, planeja construir uma segunda pele feminina, servindo-se das peles de suas vítimas — inclusive a vítima recente Catherine Martin (Brooke Smith), filha de uma senadora, que permanece aprisionada num poço aberto construído dentro de sua velha casa. O roteiro evidencia esse ser que utiliza-se do transexualismo como forma de prazer; sua psicopatia direciona-se à mulheres que ele gostaria de ser — o universo mórbido de um psicopata é expressa no roteiro que exerce um recorte da prática, hábito e comportamento ardiloso de um ser humano perverso, doente por essa condição.
Interessante que todos personagens transparecem um desconforto na presença de Lecter, mas seu dom na oratória consegue provocar intimidações; bem verdade, é um ser que atrai pelo seu lado obscuro, maníaco. E é sua inteligência que proporciona a garantia da manipulação masculina ao universo frágil de Clarice, numa espécie de "sessão terapêutica", ele consegue promover a sedução hipnótica sobre a agente do FBI. Deliciosamente ele é seu psicólogo particular e ela o venera, típica devassa questionadora, viciada no seu jogo subversivo. Eis a ironia? Lecter é o único personagem dominador na trama. Em função desse senso que, talvez, Clarice encontre um interesse em manter sua ligação ocasional com ele.
Decerto, o maior charme do filme seja a dimensão psicológica estabelecida por Jodie Foster e Anthony Hopkins — as cenas concebidas por ambos atingem o ápice do talento, impressiona na caracterização de dois personagens tão dependentes e antagônicos (Oscar de Atriz e Ator, evidentemente). A câmera incisiva de Jonathan Demme prefigura o efeito ao conceber tomadas em close-up nas faces dos dois, através da troca de diálogos densos (interessante como são tão próximos, ainda que afastados pelo vidro/grades que os separa). A sintonia de ambos contribui para a esfera tão sedutora, hipnótica e assustadora que o filme conceitua.
Mais que um retrato sobre a crueldade mórbida do universo serial-killer, é a discussão sobre o poder do diálogo humano sobre o outro. Um exercício da obscuridade humana, com tom discreto de filosofia grotesca psicológica que se torna insolúvel. O ambiente amedrontador dos assassinatos e das jaulas de Lecter intimida. Howard Shore completa a teia da psicose conceitual com sua trilha sonora, intensamente sinistra, que percorre a artéria densa do suspense da película. É um filme que promove boas reflexões, ainda que o tom psicológico seja instigante há nele uma concepção da atrocidade da violência humana que fica subtendida, incondicionalmente. E Lecter representa o que há de mais astuto e obscuro da humanidade. Eis um thriller astuto em sofisticação, simbólico e amplamente cativante.
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