[Escolha sua cidade] Brasil, 8 de janeiro de 2009
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À Espera de um Milagre
The Green Mile (EUA/1999)

Direção: Frank Darabont

Roteiro: Frank Darabont

Elenco: Tom Hanks (Paul Edgecomb), David Morse (Brutus Howell), Bonnie Hunt (Jan Edgecomb), Michael Clarke Duncan (John Coffey), James Cromwell (Warden Hal Moores), Gary Sinise (Burt Hammersmith)

[Veja os participantes de "À Espera de um Milagre"]

Duração: 188 min.

Gênero: Drama/Policial

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"Milagres acontecem nos lugares mais inesperados"
Antes de mais nada, é bom alertar que "À Espera de Um Milagre", novo filme do diretor Frank Darabont (de "Um Sonho de Liberdade") e do astro Tom Hanks, tem três horas de duração. É bom alertar também que toda a história se passa em um presídio e que os personagens principais ou são condenados à morte esperando pela execução ou são carcereiros angustiados com a profissão ingrata de conduzir um ser humano até a cadeira elétrica. Além disso, o filme é baseado em uma extensa obra do escritor Stephen King, conhecido por suas pesadíssimas histórias de terror sobrenatural e psicológico, como o clássico "O Iluminado", adaptado para as telas em 1980 por Stanley Kubrick. Para completar, alerto também que o roteiro adaptado por Frank Darabont não esconde os temas espinhosos como envelhecimento, morte, milagre, redenção, justiça e dor, e que as cenas passadas em celulóide também não poupam a platéia de momentos fortes, chocantes e, principalmente, tristes.
Tudo isso é para mostrar que "À Espera de um Milagre" é um filme doloroso de se ver. É impossível assistir as cenas e ficar indiferente ao drama dos personagens que povoam a tela. E também é impossível não se comover com um filme que mostra que a morte é um excelente pretexto para se contemplar a vida.
Paul Edgecomb (Tom Hanks, ótimo como sempre) é o guarda responsável pelo Bloco E de uma prisão de segurança máxima do sul dos Estados Unidos, onde são executados os prisioneiros condenados a morte. Em sua triste rotina, Paul enfrenta a dor toda semana mas nem por isso se torna insensível. Muito pelo contrário: junto com seus 3 colegas e amigos carcereiros, o ambiente (chamado de Milha Verde, em referência ao chão de cor verde-lima que acompanha as celas até a cadeira elétrica) é repleto de respeito devido a familiaridade com que eles se relacionam entre si e com os presos do bloco. A harmonia do local só é quebrada por Percy Wetmore, um almofadinha covarde e sádico que devido as suas ligações políticas, permanece no local causando o caos e desrespeitando os prisioneiros, os guardas e até o diretor do presídio, o bondoso Sr. Hal (James Cronwell). Mas a verdadeira história começa quando um novo condenado é mandado para os cuidados de Paul. O nome dele é John Coffey (Michael Clarke Duncan, a melhor surpresa do filme), um negro de mais de dois metros de altura, olhos bondosos e voz macia que conquista a todos (com exceção de Percy) devido a sua doçura e sensibilidade. Ele é tão diferente dos outros presos que é difícil de acreditar que tenha sido condenado pelo assassinato de duas garotinhas do interior. E Paul começa realmente a desconfiar de sua inocência quando Jonh mostra que tem um certo "dom" para ajudar as pessoas curando o guarda de uma infecção urinária que o fazia chorar de dor.
E é a partir daí que percebemos que o filme vai tomar outro rumo e que o diretor vai nos conduzir diante de uma intrincada trama sobre a solidariedade, a redenção, o medo e a vida a qual todos nós temos direito. E Frank Darabont faz isso de forma magistral: responsável pelo êxito de "Um Sonho de Liberdade" (outro filme de presídio, também baseado em obra de Stephen King), ele nos apresenta seus personagens de uma forma sutil e delicada, e mostra tamanho controle sobre cada um deles, realizando tramas paralelas, que fazem o espectador se envolver sem perder a atenção ao objetivo principal. Além de Paul, de Jonh Coffey e de Percy, temos o diretor Hal que sofre com o tumor de sua esposa, o simpático Brutal, colega de Paul, que a despeito do tamanho e do apelido, mostra-se um homem íntegro, o prisioneiro Delacroix, que passa seus últimos dias treinando um simpático ratinho, Mr. Jingles, a fazer vários truques, dentre muitos outros. Cada um deles desfila pela tela de um modo todo especial, tornando a platéia cúmplice de cada um deles. Mas se o diretor preocupou-se em apresentar seus personagens sutilmente, o mesmo não ocorre com as cenas em que se utilizam a cadeira elétrica: cada uma delas, apresenta um poder chocante e é mostrada de forma intensa e muitas vezes até cruel. Repare na cena de execução de Delacroix, uma das mais pesadas já produzidas pelo cinema americano. Mas tudo isso é proposital e funciona muito bem: para nos mostrar a importância da vida e do aprendizado, a relação estabelecida entre os guardas e os prisioneiros (em especial entre Paul e Jonh) é de um lirismo quase ingênuo e de uma sinceridade emocionante. Quando, como um último pedido, o prisioneiro pede para assistir a um filme de Fred Astaire, é impossível não se emocionar. Prepare-se: você estará diante de uma das mais belas (e simples) homenagens ao cinema já mostradas em um filme. E cada emoção despertada por esta e outras cenas ficarão na sua memória com certeza por muito tempo. E a atuação do elenco, em especial do grandalhão Michael Clarke Duncan, indicado ao Oscar de coadjuvante pelo filme, é digna dos mais calorosos aplausos. É quase mágica a relação estabelecida que nos permite ter mais medo de Percy, um covarde magrelo e baixinho do que de Jonh, um gigante musculoso e aparentemente truculento. E este "milagre" só acontece devido ao talento de ambos.
"À Espera de um Milagre" faturou milhões nos EUA. O público adorou. A crítica não. Acusaram o filme de ser moroso, lento, e pretensioso. Bobagem. Na verdade é profundo, é sensível e é doloroso. Quando as luzes se acendem, a platéia permanece em silêncio, refletindo sobre as cenas dirigidas e mostradas por Frank Darabont. E esta foi a prova de fogo: mesmo com os "alertas" dados no início da crítica, o público não se intimidou e sentiu a compaixão que o filme quis mostrar sobre as relações entre os seres humanos. A produção concorreu ao Oscar em 4 categorias, incluindo melhor filme, mas com poucas chances. Pouco importa. Dentro do mundo cínico em que vivemos, o filme teve a difícil tarefa de mostrar o que se esconde dentro de cada um de nós. Mostrou também que é possível encontrar alento nas mais difíceis provações e que é na dificuldade que se reconhece a verdadeira força do indivíduo. E esta é a principal qualidade de "À Espera de um Milagre".
Plínio Meirelles
Imagens de "À Espera de um Milagre"
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