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Estrada para Perdição
Road to Perdition (EUA/2002)
crítica por Plinio Meirelles
Todo bom diretor de cinema sofre do estigma de "o segundo trabalho". Principalmente quando o primeiro foi muito bom, é difícil criar coragem para começar um novo, especialmente porque a cobrança e a expectativa é tão grande quanto o produto em si. Muitas vezes, o talento cinematográfico se confirma. Outras, é apenas comprovada a teoria da "sorte de principiante".
Mas "Estrada para Perdição" prova que Sam Mendes não teve apenas sorte quando dirigiu o brilhante "Beleza Americana": em seu segundo trabalho, a qualidade artística do diretor está ainda mais madura.
Baseado em uma Graphic Novel (um gibi de luxo) de Max Alan Collins, Sam Mendes tinha seu filme pronto desde o final do ano passado quando, temendo pesos pesados como "O Senhor dos Anéis A Sociedade do Anel" e "Harry Potter e a Pedra Filosofal", decidiu que seu filme sombrio poderia ficar mais um tempo na geladeira. Isso, é obvio, só aumentou as expectativas: Tom Hanks, em seu primeiro papel vilanesco e amargurado sob a batuta de um diretor que dissecou a América em uma crítica ácida aos bons costumes da sociedade. Com o resultado entregue, porém, todos
os envolvidos podem respirar aliviados: "Estrada para Perdição" tem de tudo para ser um dos principais indicados ao Oscar do ano que vem. E obviamente, este era um dos objetivos do filme.
Perdição é uma cidade do interior dos EUA. É para lá que Michael Sullivan (Tom Hanks) e seu filho mais velho decidem fugir, uma vez que o grande chefão do crime organizado de Chicago, Rooney (Paul Newman) e seu filho
Connor (Daniel Craig) mataram o restante de sua família. Perdição parece ser o esconderijo perfeito para Michael, antigo braço direito de Rooney, arquitetar seu plano de vingança contra aqueles que mataram sua mulher e filho caçula. Perdição não é só a cidade, mas também o destino dos personagens. "Ninguém aqui vai para o céu", diz em alto e bom som, o chefão Rooney a Michael. "Mas a Perdição parece ser o ponto final de todos nós."
Essa metáfora do nome da cidade utilizado por Sam Mendes é apenas um dos detalhes que faz de "Estrada para Perdição" um exercício de estilo. O diretor desejava revigorar o gênero de filmes de gângsters, tão aclamado por Hollywood desde "O Poderoso Chefão", porém sem imitá-lo. É óbvio que as referências estão todas lá (saem Marlon Brando e Al Pacino, entram Paul Newman e Tom Hanks), mas o diretor opta por uma visão muito diferente do
filme de Coppola: o clima é soturno, pesado, melancólico... Porém, nada é gratuito e a visceralidade dos personagens e das situações são entregues ao espectador de forma sempre poética e nunca agressiva. Sam Mendes acredita no poder da sugestão e elabora cenas de carnificina total sem mostrar um pingo de sangue. Coloca nos olhares e no visual arrebatador toda a intenção furiosa dos personagens. O assassino vivido por Tom Hanks não precisa berrar, espernear ou jorrar sangue: seu olhar gélido já transmite toda a amargura da história. Desta forma, se "O Poderoso Chefão" era um filme de muitas palavras, em "Estrada para Perdição" perdura o silêncio. Sam Mendes prova-se corajoso ao apostar em um filme, em pleno mercado hollywoodiano, em que as situações são repletas desta quietude perturbadora. Exatamente por isso, o filme não seria tão bom se não tivesse um elenco que o sustentasse.
Tom Hanks perde a aura de ícone do bom mocismo por uma boa causa. Mostra-se mais maduro, seco, perturbador. Já Paul Newman é mito. É um daqueles atores que conseguem transmitir toda a gama de sensações de um personagem com um
simples levantar de sobrancelhas. O elenco traz ainda o talentoso Jude Law, criando um tipo quase cartunesco, perigoso e asqueroso. Os três fazem toda a diferença. Ajudam a transcender o filme, torná-lo quase inesquecível. É, com certeza um filme difícil de ser assistido, de ritmo moroso e inquietante. Melhor assim: sem se render a arroubos artísticos, a pieguice desenfreada, ou a efeitos especiais, Sam Mendes realiza um filme de qualidade inquestionável. E isso é mais que suficiente para um segundo trabalho.
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