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Estrada para Perdição


Road to Perdition (EUA/2002)

 



Direção: Sam Mendes

Roteiro: David Self

Elenco: Tom Hanks (Michael Sullivan), Jude Law (Maguire "O Repórter"), Paul Newman (Jonh Rooney), Daniel Craig (Connor), Stanley Tucci (Nitti), Liam Aiken (Peter Sullivan), Tyler Hoechlin (Michael Jr.), Jennifer Jason Leigh (Annie Sullivan), Dylan Baker (Alexander Rance)

 

Duração: 117 min | Gênero: Romance, Policial

 

crítica por Plinio Meirelles

Todo bom diretor de cinema sofre do estigma de "o segundo trabalho". Principalmente quando o primeiro foi muito bom, é difícil criar coragem para começar um novo, especialmente porque a cobrança e a expectativa é tão grande quanto o produto em si. Muitas vezes, o talento cinematográfico se confirma. Outras, é apenas comprovada a teoria da "sorte de principiante". Mas "Estrada para Perdição" prova que Sam Mendes não teve apenas sorte quando dirigiu o brilhante "Beleza Americana": em seu segundo trabalho, a qualidade artística do diretor está ainda mais madura.
Baseado em uma Graphic Novel (um gibi de luxo) de Max Alan Collins, Sam Mendes tinha seu filme pronto desde o final do ano passado quando, temendo pesos pesados como "O Senhor dos Anéis A Sociedade do Anel" e "Harry Potter e a Pedra Filosofal", decidiu que seu filme sombrio poderia ficar mais um tempo na geladeira. Isso, é obvio, só aumentou as expectativas: Tom Hanks, em seu primeiro papel vilanesco e amargurado sob a batuta de um diretor que dissecou a América em uma crítica ácida aos bons costumes da sociedade. Com o resultado entregue, porém, todos os envolvidos podem respirar aliviados: "Estrada para Perdição" tem de tudo para ser um dos principais indicados ao Oscar do ano que vem. E obviamente, este era um dos objetivos do filme.
Perdição é uma cidade do interior dos EUA. É para lá que Michael Sullivan (Tom Hanks) e seu filho mais velho decidem fugir, uma vez que o grande chefão do crime organizado de Chicago, Rooney (Paul Newman) e seu filho Connor (Daniel Craig) mataram o restante de sua família. Perdição parece ser o esconderijo perfeito para Michael, antigo braço direito de Rooney, arquitetar seu plano de vingança contra aqueles que mataram sua mulher e filho caçula. Perdição não é só a cidade, mas também o destino dos personagens. "Ninguém aqui vai para o céu", diz em alto e bom som, o chefão Rooney a Michael. "Mas a Perdição parece ser o ponto final de todos nós."
Essa metáfora do nome da cidade utilizado por Sam Mendes é apenas um dos detalhes que faz de "Estrada para Perdição" um exercício de estilo. O diretor desejava revigorar o gênero de filmes de gângsters, tão aclamado por Hollywood desde "O Poderoso Chefão", porém sem imitá-lo. É óbvio que as referências estão todas lá (saem Marlon Brando e Al Pacino, entram Paul Newman e Tom Hanks), mas o diretor opta por uma visão muito diferente do filme de Coppola: o clima é soturno, pesado, melancólico... Porém, nada é gratuito e a visceralidade dos personagens e das situações são entregues ao espectador de forma sempre poética e nunca agressiva. Sam Mendes acredita no poder da sugestão e elabora cenas de carnificina total sem mostrar um pingo de sangue. Coloca nos olhares e no visual arrebatador toda a intenção furiosa dos personagens. O assassino vivido por Tom Hanks não precisa berrar, espernear ou jorrar sangue: seu olhar gélido já transmite toda a amargura da história. Desta forma, se "O Poderoso Chefão" era um filme de muitas palavras, em "Estrada para Perdição" perdura o silêncio. Sam Mendes prova-se corajoso ao apostar em um filme, em pleno mercado hollywoodiano, em que as situações são repletas desta quietude perturbadora. Exatamente por isso, o filme não seria tão bom se não tivesse um elenco que o sustentasse.
Tom Hanks perde a aura de ícone do bom mocismo por uma boa causa. Mostra-se mais maduro, seco, perturbador. Já Paul Newman é mito. É um daqueles atores que conseguem transmitir toda a gama de sensações de um personagem com um simples levantar de sobrancelhas. O elenco traz ainda o talentoso Jude Law, criando um tipo quase cartunesco, perigoso e asqueroso. Os três fazem toda a diferença. Ajudam a transcender o filme, torná-lo quase inesquecível. É, com certeza um filme difícil de ser assistido, de ritmo moroso e inquietante. Melhor assim: sem se render a arroubos artísticos, a pieguice desenfreada, ou a efeitos especiais, Sam Mendes realiza um filme de qualidade inquestionável. E isso é mais que suficiente para um segundo trabalho.

 

Onde assistir

Programação

Filme fora de cartaz ou programação indisponível

 

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