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O Veneno da Madrugada
O Veneno da Madrugada (Brasil/2004)
Direção:
Ruy Guerra
Roteiro:
Ruy Guerra,
Tairone Feitosa
Elenco:
Tonico Pereira (Barbeiro),
Jean Pierre Noher (César Monteiro),
Leonardo Medeiros (Alcaide),
Juliana Carneiro (Viúva Assis),
Fábio Sabag (Padre Angel),
Zózimo Bulbul (Carmichael),
Rejane Arruda (Rosário),
Maria João Bastos (Rebeca Assis),
Fabiano Costa (Anão),
Amir Haddad (Dom Sabas)
Duração: 118 min
|
Gênero: Drama
crítica por Gustavo Catão
Ruy Guerra é um dos grandes veteranos do cinema nacional. Em 1963 ele iniciou sua carreira com o marcante "Os Cafajestes", grande sucesso de público considerado filme emblemático do Cinema Novo. Depois de 43 anos de sua estréia na direção de longas-metragens, Guerra traz mais um trabalho extremamente original, com uma trama angustiante capaz de prender a atenção dos espectadores com sua forma totalmente inovadora de ser contada.
"O Veneno da Madrugada", 25º longa da carreira de Guerra, é baseado no romance "La Mala Hora", de Gabriel Garcia Marquez, escritor que dispensa apresentações. Esse é o quarto trabalho de Guerra em que ele adapta um texto de Garcia Marquez (o primeiro foi "Erêndira", de 1983), e ele o faz com total liberdade criativa. Liberdade tanta que ele transforma uma história essencialmente linear em três seqüências cronológicas independentes, que se completam ao mesmo tempo que se contradizem. Não entendeu? Bom, para explicar melhor é bom entrar um pouco na história do filme. "O Veneno da Madrugada" se passa em um pequeno e decadente vilarejo do interior, onde duas famílias brigam pelos restos de riqueza de um lugar abandonado pelo tempo e pelo progresso. No meio dessa briga os habitantes da cidade vivem suas vidas tediosas, até que começam a surgir bilhetes anônimos por toda a cidade, revelando segredos e intrigas de seus habitantes. Sob uma chuva constante, a cidade então vive 24 horas em que escolhas serão feitas, lados serão tomados e nada mais permanecerá como antes. O detalhe que faz de "O Veneno da Madrugada" uma obra tão interessante é que esta história é contada como que através de um quebra-cabeças. Acontecimentos separados são mostrados em uma ordem apenas cronológica o suficiente para que o espectador compreenda a trama e então recontados a partir do início do dia, completando as lacunas deixadas na passagem anterior. Mas à medida que os eventos da história se desenrolam, novas possibilidades são intercaladas. A trama é então uma mas ao mesmo tempo três, de uma maneira que é impressionantemente compreensível. Agora que o núcleo desse longa está um pouco menos nebuloso (ou assim eu espero), vale ressaltar por quê "O Veneno da Madrugada" é original. Afinal, apesar da maioria esmagadora dos filmes ter uma seqüência cronológica linear, não é a primeira vez que vemos um cineasta bagunçando com a ordem dos eventos. Desconsiderando pequenos elementos de narrativa como "flashbacks", filmes em que boa parte da trama não evolui temporalmente têm o irritante costume de serem tão confusos que o espectador não faz a menor idéia do que aconteceu até que um psicólogo, filósofo ou estudante de arte o explique, muitas vezes com a ajuda de desenhos e gráficos (existem nobres exceções, como o fantástico "Amnésia", de Christopher Nolan). E esse não é o caso de "O Veneno da Madrugada". É claro que há muito simbolismo nas obras de Ruy Guerra, mas o importante aqui é que o espectador comum consegue construir o filme na sua cabeça e entender não só o que acontece como também tudo o que poderia acontecer e suas conseqüências na trama. Mantendo a analogia do quebra-cabeças, é como se nos outros filmes todas as peças fossem brancas.
De um ponto de vista técnico o longa de Ruy Guerra também tem muitos pontos positivos. Marcos Flaksman, diretor de arte, conseguiu na criação da cidade cenográfica criar de forma convincente o ambiente colonial decadente retratado tão bem nos livros de Gabriel Garcia Marquez, em especial o do vilarejo de Macondo, onde se passa o romance "Cem Anos de Solidão", obra posterior a "La Mala Hora". A imagem do vilarejo meio que abandonado ainda fica mais impactante através de uma imagem escura e de contrastes, onde predominam o preto e o amarelo. E, é claro, a chuva, elemento essencial na ambientação e que adiciona uma certa angústia ao desenvolvimento da trama. Apenas o som do filme deixa a desejar, audaciosamente criando uma "trilha sonora" com objetos como fósforos e bumbos, mas deixando os diálogos abafados e em alguns momentos incompreensíveis. O elenco inclui atores que já haviam trabalhado com Ruy Guerra, como os veteranos Fábio Sabag, Ruy Polanah, Rui Resende e Tonico Pereira, mas o principal destaque é Leonardo Medeiros, que faz o Alcaide.
"O Veneno da Madrugada" não é um marco na história do cinema e nem vai revolucionar a maneira como as histórias são contadas. É um ótimo filme que combina bons atores e pesonagens complexos com uma trama envolvente contada de uma forma original. E isso já não é o bastante?
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