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O Artista
The Artist (França/2011)
crítica por Clênio Viégas
Qual foi a última que você, caro fã de cinema, sentiu-se surpreendido e encantado por um filme, a ponto de esquecer da realidade? Em uma época em que praticamente tudo parece mais do mesmo no mundo da sétima arte, foi preciso uma co-produção belgo-francesa de orçamento quase irrisório (12 milhões de dólares) para relembrar ao público e à crítica que, mais do que custos astronômicos e estrelas sorridentes, a criatividade e a inteligência é que são as verdadeiras forças por trás do bom cinema."O Artista" é o provável vencedor do próximo Oscar. E merece!
A trama criada por Michel Hazanavicius tem início em 1927, quando o cinema mudo começa a dar seus últimos suspiros. A chegada do cinema falado ameaça o sucesso de um dos maiores astros das telas, o carismático George Valentin (interpretado com maestria por Jean Dujardin), que, acompanhado invariavelmente de seu cachorro de estimação, leva multidões às salas de exibição com seus filmes de aventura e romance. No momento em que começa a perceber que está tornando-se anacrônico, Valentin vê também seu casamento ruir e suas finanças entrar em colapso (em especial depois do crash de 1929 e de sua tentativa de dirigir seus próprios filmes). Sua derrocada artística e emocional contrasta com a ascensão vertiginosa de Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma jovem e talentosa corista que se transforma, quase da noite para o dia, em estrela absoluta dos filmes falados.
A ousadia maior de Hazanivicius - e seu maior trunfo - foi ter realizado sua obra-prima indo contra todas as regras comerciais ditadas por Hollywood. Fotografado em um deslumbrante preto-e-branco e rodado quase totalmente sem diálogos ou som (com a exceção da estupenda trilha sonora de Ludovic Bource) - no formato no qual eram feitos os filmes mudos, o que destacava as expressões faciais dos atores - o filme utiliza um momento crucial da história da sétima arte para homenagear o próprio cinema, de forma carinhosa, nostálgica e bem-humorada. Inteligente, o roteiro brinca de metalinguagem sem tornar-se hermético ou autocomplacente, dando à audiência a chance de deleitar-se com inúmeras referências estéticas (os filmes estrelados por Errol Flynn, por exemplo) ou verbais ("I want to be alone", dispara Peppy Miller em uma das cenas, parafraseando Greta Garbo). Até mesmo a utilização parcimoniosa do som (em duas sequências geniais) é um achado, traindo a paixão de seu criador pelo cinema clássico.
Mas, além de sua qualidade técnica impecável, "O Artista" ainda conta com outra carta na manga seu elenco admirável. Se os coadjuvantes seguram a cena de maneira formidável - e entre eles estão John Goodman, a sumida Penelope Ann Miller e o sempre competente James Cromwell - são os protagonistas que fazem dele uma experiência única. A argentina Bérénice Bejo (que no longínquo 2001 fez uma participação pequena em "Coração de Cavaleiro") está perfeita na pele da coquette Peppy Miller, equilibrando humor e drama com a segurança de uma veterana e o francês Jean Dujardin é o grande achado do filme. Carismático, intenso e dono de um impressionante talento físico, ele saiu merecidamente premiado na última cerimônia do Golden Globe e, se a justiça for feita, deve levar também o Oscar no dia 26 de fevereiro sua atuação é das mais empolgantes e encantadoras dos últimos anos, revelando ao mundo um ator completo em um momento único da carreira.
Este ano a safra dos filmes que podem concorrer ao Oscar está bem fraca, sem grandes e destacados favoritos. Mas mesmo que estivesse em um páreo mais acirrado, "O Artista" mereceria o sucesso e os elogios que vem recebendo. É cinema em seu estado puro e um êxtase para os cinéfilos de todas as idades! Bravíssimo!
crítica por Bruno Knott
Indicado a 10 Oscars e vencedor de vários prêmios, "O Artista" é uma verdadeira homenagem a uma época inesquecível do cinema. O diretor Michel Hazanavicius não se intimidou e realizou um filme mudo e em preto e branco em pleno século 21. Uma ideia que poderia não dar certo se transforma em uma experiência nostálgica e tocante.
George Valentin (Jean Dujardin) é um astro do cinema mudo que começa a perder seu posto com o início da era dos filmes falados. Ele nem tenta se adaptar ao novo formato. Para ele esse tipo de cinema é uma afronta à arte e não passa de um modismo.
O filme mostra toda a dificuldade que George enfrenta, proporcionando momentos capazes de nos emocionar de maneira genuína, principalmente pela inspirada atuação de Dujardin. George é um apaixonado pelo o que faz, mas que parece não ter lugar nesta nova e "barulhenta" Hollywood. Uma cena em particular que demonstra a inspiração dos criadores do filme é aquela em que uma simples pena produz um ruído ensurdecedor. É uma metáfora pouco sutil da situação vivida pelo ex-astro, mas que funciona muito bem.
A sinopse pode não ser das mais originais, afinal já vimos algo parecido em filmes como "Cantando na Chuva", por exemplo, mas a maneira como são exploradas as possibilidades do cinema mudo é algo notório. A parte técnica é um dos grandes destaques, tanto pela natural beleza das fotografias dos filmes em preto e branco, como pela trilha sonora composta por Ludovic Bource.
Durante pouco menos de 100 minutos somos invadidos por um saudosismo mais do que agradável. É uma experiência hipnótica repleta de momentos marcantes, como o cachorrinho inteligente e suas peripécias, o humor eficaz e aquelas situações que nos atingem em um lado mais emocional. Se levar o Oscar de melhor filme o prêmio estará em ótimas mãos.
crítica por Vivian Lopes
A primeira constatação a se fazer é: a plateia do cinema jovem ou mais madura - com ouvidos tão viciados em efeitos sonoros, explosivos e gritantes, e olhos já íntimos da terceira dimensão – é, sim, perfeitamente capaz de se emocionar e de se envolver com um filme que volta ao fim dos anos 1920. Ou seja, a estética, por mais que evolua em sua técnica, não perde a força de comoção, não envelhece diante do tempo.
É claro que a experiência estético-visual de ir ao cinema é individual, mas não posso negar minha alegria ao perceber espectadores inteligentes e sensíveis, capazes de rir de piadas inocentes e de um cachorrinho brincalhão.
Para uma fã incondicional de “Cantando na chuva”, não há muito de original em “O artista”. Muitas semelhanças são detectadas: uma artista muito talentosa escondida entre as figurantes se apaixona por um já consagrado ator do cinema mudo, no justo momento em que a sincronização do áudio passa a ser possível na sétima arte. A despeito da genialidade do musical, “O artista” passa a ser original quando aborda o ego do artista neste contexto, principalmente porque a problemática da trama narrativa se dá justamente no orgulho e na dificuldade do artista entender que o seu tempo passou e que sua inabalável carreira e talento foram colocados a prova.
A originalidade não para por aí. Aos espectadores mais atentos e íntimos do tão poético cinema mudo, transparece também a utilização de ângulos bastante modernos, sem perder, é claro, o ritmo mais lento e delicado da trama.
Um plano aberto belíssimo: George Valentin (Jean Dujardin), já em decadência, encontra-se com Peppy Miller (Bérénice Bejo) que está subindo os degraus da fama. Estão na escada, ela no degrau de cima, ele no degrau debaixo. Mantem um diálogo longo o suficiente para que o espectador consiga visualizar a metáfora. E a metalinguagem não pára por aí: o pesadelo de George é um dos momentos mais ricos do filme, no qual todos os sons aparecem, menos a sua voz.
Película que homenageia uma época de ouro do cinema, entre grandes nomes da história, através das intertextualidades. E, um convite para aqueles que ainda não conhecem os clássicos, realizarem este caminho contrário, pesquisando e se emocionando com a glamourosa arte da massa e seus momentos mais doces de poesia e encantamento.
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