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Meia Noite em Paris
Midnight in Paris (EUA/2011)
crítica por Clênio Viégas
Woody Allen é um cineasta capaz de devolver à plateia a fé no bom cinema. "Meia Noite em Paris", seu novo longa-metragem, é uma pequena obra-prima de delicadeza, romantismo, bom-humor e cultura. Logicamente, não é um filme para o público cuja ideia de comédia é "Se Beber Não Case 2", mas sim um presente carinhoso a seus fieis espectadores. Ecoando a fantasia de "A Rosa Púrpura do Cairo" - em que a personagem de Mia Farrow se apaixonava pelo protagonista de um filme, que abandonava a tela para conquistá-la - e a beleza singela de "Manhattan" - que, como o título sugere, é uma homenagem à Nova York - "Meia Noite em Paris" convida a audiência a uma deliciosa viagem a um tempo em que a Cidade-Luz ainda era uma festa, frequentada por gente da estirpe de Ernest Hemingway e Salvador Dalí.
Owen Wilson (surpreendentemente bem e deixando para trás os irritantes trejeitos que lhe deram fama) vive Gil Pender, um roteirista de Hollywood que sonha em ser reconhecido como escritor sério. Em viagem por Paris com sua noiva, a bela Inez (Rachel McAdams imitando Scarlett Johansson), ele sente-se enciumado por sua relação com um antigo professor, Paul (Michael Sheen) e, um pouco bêbado e muito perdido nas ruas da cidade em uma madrugada, acaba indo parar em uma festa um tanto estranha, onde dá de cara com o escritor F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e sua esposa Zelda (Alison Pill), além de testemunhar o próprio Cole Porter (Yves Heck) tocando para os convidados. Percebendo que está convivendo com artíficies dos anos 20, como Hemingway (Corey Stoll, ótimo) e Gertrude Stein (Kathy Bates) - a quem pede opiniões sobre seu novo romance - Gil passa a, todas as noites, sair para a farra com seus novos amigos, que incluem o pintor Salvador Dalí (Adrien Brody) e o cineasta Luis Buñuel (Adrien de Van) - a quem dá a ideia de seu filme "O Anjo Exterminador". Tudo fica complicado quando ele se apaixona pela bela Adriana (Marion Cottilard), musa de artistas como Pablo Picasso e Modigliani e fica tentado a abandonar sua geração para permanecer na segunda década do século XX.
As piadas de "Meia Noite em Paris" são sofisticadas e eruditas, mas jamais soam pedantes ou herméticas. É claro que é preciso uma certa cultura para melhor usufruir de todos os detalhes e homenagens que Allen larga pelo caminho, mas mesmo quem nunca ouviu falar de Toulouse-Lautrec e T.S. Eliot pode se deixar contaminar pelo romantismo derramado que a bela fotografia de Darius Khondji inspira e pela questão que o roteiro levanta: afinal de contas, a época em que sonhamos viver é realmente melhor do que a em que realmente vivemos ou tudo não passa de uma fantasia regada por nossas referências culturais?
Qualquer que seja a resposta, isso é o que menos importa. O que realmente vale dizer é que "Meia Noite em Paris" é Woody Allen em sua melhor forma.
crítica por Bernardo Gariglio
Na adolescência, eu acreditava ter nascido na época errada mas foi só ouvindo os comentários na saída da sessão de "Midnight in Paris" ("Meia Noite em Paris") que percebi que esse sentimento está presente em muitas pessoas. Não sei como não descobri isso antes, afinal, só vejo Beatles ao meu redor, desde na tatuagem da garota no metrô até no setlist da banda de forró! É comum que essa sensação de idealização do passado vá ganhando contornos de convicção à medida que a pessoa envelhece mas o septuagenário Woody Allen não é comum. Ele não apenas nos convida a questionar esse pensamento como o faz de maneira nada convencional, utilizando para isso Paris, realismo fantástico e Cole Porter.
Em respeito a divulgação diferenciada do filme (já reparou que os trailers só faltam contar o final das histórias?), vou me esforçar para não revelar um ponto importante da trama. O roteirista de Hollywood Gil (Owen Wilson) se encanta com Paris durante uma visita, passando a acreditar que morar na cidade lhe dará inspiração para escrever seu primeiro romance, enquanto sua noiva Inez (Rachel McAdams) não se vê fora dos Estados Unidos por muito tempo. Ela também discorda da visão do noivo de que a capital da França nos anos 20, com seus célebres escritores e pintores, era ainda melhor do que hoje. Pela cidade, o casal acompanha os pais de Inez (Kurt Fuller e Mimi Kennedy), entusiastas dos Tea Party, e ainda encontra o conhecido Paul (Michael Sheen), sujeito cheio de si, um exemplo perfeito de pseudo-intelectual. Para Gil, toda essa gente é dispensável e ele consegue escapar diariamente para realizar suas incursões sozinho conhecendo figuras bem mais interessantes: a bela Adriana (Marion Cotillard) e seus amigos. E é aí que Allen dará vazão aos próprios desejos, afinal, Wilson interpreta seu alter ego, o que torna compreensível o leve exagero na aparição dos ídolos dos dois.
A situação absurda (e secreta nesse espaço!) é bem explorada sob todos os aspectos propostos: românticos, cômicos e dramáticos, sempre com uma abordagem leve. Tal qual é a apresentação de Paris, de maneira quase displicente (repare no relance para uma obra-prima das artes plásticas mundial), o que não deixa de ser o suficiente para causar encantamento. Porém, o diretor não cai no jogo fácil de levar o espectador a compartilhar da visão idealizada do protagonista, de fazer um filme-propaganda da Cidade Luz e é aí que entra a importância dos personagens de McAdams e Sheen ao estarem constantemente minando o deslumbramento de Gil. Apesar de irritantes, eles tem um pouco de razão!
Como de costume, e talvez até mais do que o normal, as referências culturais são diversas, sendo difícil acompanhar todas as piadas (confesso que fiquei pra trás em pelo menos uma), o que não impede ninguém de apreciar a obra. Com uma abertura simples e apaixonante, trilha sonora agradável (Cole Porter, Sidney Bechet) e misturando comédia e romantismo mas passando longe do que se espera de uma comêdia romântica, "Meia Noite em Paris" nos avisa que realizar nossos sonhos pode também implicar em confrontar nossa opiniões mais apaixonadas.
crítica por Daniel Medeiros
Woody Allen segue uma cartilha própria na concepção de seus filmes. Quase sempre mostrando a alta sociedade, com personagens cultos ao extremo tornando-os chatos (nesse caso, usa-se o termo “pedante”), e um “herói” freqüentemente deslocado daquele meio, cuja postura é submissa em relação aos que o cercam. Quando foge de seus próprios padrões, o resultado pode ser excelente (como em “A Rosa Púrpura do Cairo” e “Match Point”), porém, aventurar-se em terreno conhecido pode também trazer ótimos resultados. Meia-Noite em Paris é um desses casos.
Mantendo sua idolatria pela cidade aonde o longa se passa - assim como fez muitas vezes em Nova Iorque e, posteriormente, em Barcelona - aqui o seu foco se cai sobre a bela Paris. Sendo assim, as cenas iniciais, com longos planos estáticos mostrando toda a exuberância da cidade, surgem como um prelúdio para o que se verá durante o restante da projeção: uma verdadeira homenagem à Cidade da Luz. E, vislumbrando com olhar vidrado e inocência infantil às belezas da capital francesa, Owen Wilson revela-se uma escolha mais do que perfeita para viver o alter-ego do diretor.
Wilson interpreta Gil, um bem-sucedido, porém frustrado, roteirista de Hollywood que viaja com a família de sua noiva (Rachel McAdams) para Paris, em uma viagem de negócios. Maravilhado, Gil mostra-se nostálgico ao imaginar como seria o local na década de 1920, época que ele considera o momento mais glorioso da cidade. Enquanto sua noiva parece mais interessada em reatar a amizade com um antigo namorado (Michael Sheen), Gil passeia pelas ruas de Paris, em busca de inspiração para escrever o seu primeiro livro, quando um estranho carro o oferece carona. É então que, para sua surpresa, ele vai parar na maravilhosa Paris dos anos 20, onde conhece a elite cultural (Hemingway, Scott Fitzgerald, Picasso entre muitos outros) e se apaixona pela bela Adriana (Marion Cotillard), a musa de vários artistas da época.
Com diálogos rápidos e bem elaborados, Allen faz aqui um filme bastante acessível, que deve agradar tanto os seus fãs mais fervorosos (mantendo características conhecidas suas como o uso de quadros abertos, com vários atores em cena falando ao mesmo tempo), quanto aqueles que ainda não são familiarizados com sua filmografia (qualquer um vai cair na gargalhada com o desfecho da história do detetive). Ainda assim, o diretor não deixa de exigir um certo conhecimento prévio da cultura francesa para que possamos entender melhor as constantes referências – a piada sobre o clássico surrealista “O Anjo Exterminador” é hilária – e o verdadeiro desfile intelectual que vemos durante a projeção.
O roteiro peca apenas por ser, em certos momentos, pleonástico demais. Ainda que seja uma característica de Woody que seus personagens falem demais, e muitas vezes até sozinhos, fica redundante os vermos falando algo que apenas ilustra o que já vínhamos vendo até então (“Estou tendo um insight”). Afinal, em um longa onde as pessoas falam sem parar, é realmente necessário vermos alguém falar “Ah, os brincos!” e depois voltar para o quarto e procurar pelos mesmos? A imagem não seria suficiente? E o que dizer então da seqüência que envolve o diário de Adriana que, como percebemos a seguir, além de forçada, não leva a lugar nenhum.
Tais equívocos, porém, não atrapalham em nada o resultado final. Vindo de uma série de filmes medianos (“O Sonho de Cassandra”, “Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos”, etc.) Allen parece ter aprendido com os seus erros, focando-se naquilo que sabe fazer bem: humor ácido, sarcástico e de qualidade.
crítica por Silvano Vianna
Já faz algum tempo que Woody Allen deixou a sua amada Nova York para percorrer as grandes cidades da Europa e nos contar belos filmes, a bola de vez é Paris. O filme Meia Noite Em Paris é uma declaração de amor do famoso diretor a cidade luz, sua estréia mundial aconteceu na abertura do Festival de Cannes desse ano. A produção ainda contou com a participação mais do que especial da primeira dama francesa Carla Bruni, que dizem a lenda foi acompanha de perto pelo maridão Sarkozi.
A produção contou com alguns bons atores e a aposta certeira de Allen em Owen Wilson ("Passe Livre", "Como Você Sabe", "Os Excêntricos Tenenbaums") para viver o protagonista do filme. fazendo o papel de homem sem rumo e neurótico sempre presente nas produções do cineasta. O elenco conta ainda com a lindíssima Marion Cotillard ("Um Bom Ano", "A Origem"), o versátil Michel Sheen ("Ameaça Terrorista", "Tron - O Legado", "Frost/Nixon") e a bela Rachel McAdams ("Sherlock Holmes", "Uma Manhã Gloriosa", "Intrigas de Estado").
No longa acompanhamos a jornada de Gil (Owen Wilson) um roteirista que sempre idolatrou os grandes escritores americanos e quis ser como eles. A vida lhe levou a trabalhar como roteirista em Hollywood, o que por um lado fez com que fosse muito bem remunerado, por outro lhe rendeu uma boa dose de frustração. Agora ele em para Paris ao lado de sua noiva, Inez (Rachel McAdams), e dos pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). John irá à cidade para fechar um grande negócio e não se preocupa nem um pouco em esconder sua desaprovação pelo futuro genro. Estar em Paris faz com que Gil volte a se questionar sobre os rumos de sua vida, desencadeando o velho sonho de se tornar um escritor reconhecido.
Fui ao cinema conferir essa produção com grande expectativa pois já tinha lido boas críticas sobre o mesmo, ainda que um pouco cético com uma atuação descente de Owen Wilson. Felizmente me enganei nesse aspecto e o "galã" com o nariz mais estranho dos cinemas, nos presenteia som uma atuação sólida fazendoo papel de homem sem rumo e neurótico ainda melhor que o próprio Woody Allen ("Tudo Pode Dar Certo", "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos"). Outro que vai muito bem é Michel Sheen, aliás ele é um ator muito consistente e ajuda a criar um clima bem legal como o antagonista, chato e metido a besta.
O ponto alto de Meia Noite em Paris é o bom uso que Allen faz da cidade, aproveitando boas passagens tanto a noite quanto de dia. Ele soube mesclar bem também a interação entre passado e futuro usando bons diálogos que tem consistência e conteúdo. Para aqueles que gostam é uma produção que fala da vida, das escolhas e da sensação constante que temos de o passado ser melhor do que o presente. Vale ser conferido por fãs ou não do cineasta que não vão se arrepender nem um pouco.
crítica por Mayara Bastos
No início de "Meia Noite em Paris", o protagonista diz em um momento que largaria sua vida nos EUA - em que é um roteirista de filmes - para viver em Paris. Porque além de ser um colírio visual, é um lugar perfeito para escritores frustrados terem certa inspiração para escreverem suas histórias. Um pensamento romântico, digamos.
Gil (Owen Wilson) desembarcou em Paris com sua noiva Inez (Rachel McAdams), acompanhar os pais desta que estão à negócios por lá. Ele é um sujeito idealista e sonhador, acha que a Cidade-Luz é mais encantadora na chuva. Ela é mais realista e fútil, pensando somente o que está ao seu redor têm a ver com o consumismo, além da aproximação maior com um pedante ex-namorado dela, um pseudointelectual.
Não conseguindo se adaptar a rotina “agitada” de sua noiva e dos amigos dela, Gil começa a fazer passeios noturnos pela cidade e quando o sino toca na meia-noite, ele acaba se deparando com algumas figuras como os escritores Ernest Hemingway, F. Scott Fiztgerald e sua esposa, Zelda, o músico Cole Porter, o pintor Pablo Picasso, entre outros, na época dos anos 1920, quando eles andavam por cafés e pontos turísticos.
Depois de começar estes passeios noturnos, Gil deparou-se com o seu maior sonho de viver a época dos anos 20, ou poderia estar ficando neurótico, é um dilema que Gil enfrenta: querer viver este sonho ou voltar para os EUA e ter uma vida miserável. O que pode ser separado entre a fantasia ou a imaginação numa situação dessas?
Woody Allen coloca em discussão a imagem de Paris, que possui um acervo histórico muito rico, especialmente na Belle Époque, a era de ouro da beleza. È uma viagem turística-histórica que não exige muito conhecimento do espectador, só viajar na fantasia, sonhar acordado. O clima do filme lembra muito da declaração de amor de "Manhattan" e da fuga da realidade de "A Rosa Púrpura do Cairo".
Sobre o elenco, Owen Wilson faz seu tour de force como Gil Pender, incorporando bem os tiques de Allen sem soar forçado. A carismática Rachel McAdams está ótima, mas infelizmente não é muito beneficiada por sua Inez causar total antipatia. Do outro lado, temos a sensacional Marion Cotillard como Adriana, musa inspiradora de Picasso, além de Michael Sheen, como o amigo pedante Paul, Alison Pill como a esposa de Fiztgerald e Adrien Brody, numa breve, mas impagável participação como Salvador Dalí.
A vida necessita que podemos embarcar em um lugar e procurar inspiração. È isso que "Meia Noite em Paris" quer proporcionar para os amantes de um bom e belo Cinema. Sonhar não é um perigo, é uma das maiores artes que existem para entendermos o significado da vida.
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