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Ponto Final - Match Point
Match Point (Inglaterra/2005)
crítica por Lucas Salgado
Respirar novos ares de fato fez bem a Woody Allen. Depois de realizar a maioria absoluta de seus filmes em Nova York, Allen resolveu rodar este “Ponto Final - Match Point” em Londres. E a escolha não poderia ser mais acertada. Tudo bem que a trama poderia se passar em qualquer cidade, mas para o quê o filme se propõem a atmosfera londrina cai muito bem.
O fato de se passar em um lugar diferente de Nova York é a primeira de diversas características “anti-woodiallianas” presentes no filme. Apesar de algumas similaridades com “Crimes e Pecados” (1989) e “Tiros na Broadway” (1994), “Match Point” é muito diferente de tudo o que Allen realizou. Aqui os longos diálogos são substituídos por uma trama intensa e silenciosa sobre ambição, cinismo, culpa e sexo. É praticamente um thriller, que lembra muito inclusive o mestre Alfred Hitchcock e seu “Pacto Sinistro”. O filme conta ainda com referências claras ao clássico “Crime e Castigo”, de Doistoiévski.
Primeiro drama de Allen em 16 anos, o longa conta a história de Chris, um ex-tenista irlandês (Jonathan Rhys-Meyers, vencedor do Globo de Ouro pela minissérie “Elvis”), que sobe na vida em Londres ao se casar com uma mulher rica (Emily Mortimer, excelente). Seu alpinismo social é então atormentado pelo surgimento da candidata a atriz Nola (Scarlett Johansson, muito, muito gos... bonita), noiva de seu cunhado, e com quem tem um caso. Chris se encontra então numa sinuca de bico, sem saber se deixa levar-se pela paixão ou se opta pela boa e rotineira vida de casado. O desfecho de toda esta trama é apoteótico, nos mostrando que de fato estávamos assistindo um filme de Woody Allen, pois só sua mente cômica e trágica poderia bolar algo assim. Em determinada cena, lá pelo meio de “Ponto Final - Match Point”, dá vontade de levantar e aplaudir, tamanha a genialidade do diretor, que desta vez não atua no filme.
Apesar de toda a trama girar em torno do personagem de Rhys-Meyers, é de fato Scarlett que rouba a cena. A atriz de “Encontros e Desencontros” tem tudo para se tornar a nova musa de Woody, seguindo os passos de Diane Keaton e Mia Farrow. Os dois já rodaram um novo filme juntos, a comédia “Scoop”, também filmada em Londres.
“Match Point” é tão bom que foi unanimidade inclusive na terra do Tio Sam, onde os críticos não são lá muito fãs de Allen (ele mesmo brinca com isso em vários filmes). Nos Estados Unidos, a imprensa tem mania de dizer que ele sempre se repete. Isso pode até ser verdade, em parte, mas isso é mais que natural para alguém que fez 40 filmes em 40 anos. Em contrapartida, que outro diretor fez filmes tão diferentes entre si, quanto o musical “Todos Dizem Eu Te Amo”, a comédia pastelona “Os Trapaceiros” e este drama? A resposta é simples: nenhum!
Mas se Woody conseguiu agradar à crítica norte-americana e o público (faturou mais de US$ 17 milhões – US$ 2 milhões a mais que o orçamento total), não foi desta vez que ele reconquistou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que lhe deu apenas uma indicação ao Oscar, a de Melhor Roteiro Original. A ausência de “Match Point” em categorias como Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz Coadjuvante foi a grande injustiça da cerimônia de 2006. Mas Allen não deve estar perdendo a cabeça com isso, já que não compareceu para receber nenhum dos três Oscars que conquistou.
Apesar de se tratar do filme de maior duração da carreira de Allen (124 minutos), o longa não cansa em momento algum e deve ser conferido até por aqueles que, Deus sabe por quê, não gostam do cineasta.
Ah... como a Confraria sempre tem o costume de criticar traduções de títulos idiotas vocês devem achar estranho que ainda não falei nada sobre esse infame título “Ponto Final - Match Point”, que segue a linha de “Closer - Perto Demais”, “Sin City - A Cidade do Pecado”, “Shine - Brilhante”, etc, etc, etc. Porém, desta vez a distribuidora tem uma justificativa. O título “Ponto Final” já estava registrado pelo cineasta brasileiro Marcelo Taranto (“A Hora Marcada”) para seu novo filme, que está em pré-produção. Como a PlayArte, distribuidora do filme de Woody Allen, já havia gastado dinheiro com publicidade divulgando o título “Ponto Final”, ela optou por manter a tradução e acrescer o título original como uma espécie de subtítulo. Não foi a melhor das opções, mas pelos menos eles têm uma justificativa.
crítica por Cristiano Contreiras
Woody Allen sempre teve o cuidado em tratar a natureza humana com seus vícios e também virtudes, de maneira bem peculiar. Ofertando roteiros inteligentes, nos últimos anos, evocou uma maior intimidade sobre o lado sexual das motivações comportamentais da humanidade.
O orgasmático Match Point é um filme que mantém seu característico olhar sobre a feminilidade, porém aqui há uma concepção sobre a esfera da virilidade masculina - é a noção do desejo de um homem, suas malícias e anseios. E o roteiro humanista aqui tem o verniz quente do senso da traição como premissa. É um conto de sedução, numa trama bastante intricada, onde a tônica carnal humana verbaliza seus sentidos. Neste trabalho, não há nos traços psicológicos nem um personagem alleniano - não existe aqui um alter-ego do diretor, nem as habituais crises cômicas. Retira-se as ironias e neuroses, insere um thriller-erótico instigante. Sai Nova York e o terreno narrativo centra-se no charme de Londres. A trama tensa foca na percepção de Chris Wilton (Jonathan Rhy-Meyers), um jovem ambicioso que almeja ascender socialmente. Para isso, haverá nele boas condutas morais? Ex-tenista, dá aulas num clube. É quando faz amizade com o rico empresário Tom Hewett (Matthew Goode) que a vida dele muda. Através do universo de Tom que o roteiro de Allen providencia a catarse do personagem protagonista - Chris ganha amizade e um forte laço de cumplicidade se sustenta quando passa a fazer parte do círculo de vida luxuosa de seu amigo. Quando conhece Chloe (Emily Mortimer), irmã de Tom, o destino canaliza melhor intimidade neste novo universo social. Chris entra na alta sociedade inglesa, passa a namorar Chloe e ganha um importante cargo na empresa de sua família. A aparente felicidade entra em conflito quando Chris conhece Nola (Scarlett Johansson), aspirante a atriz e namorada de Tom. O que fazer para conter o tesão que induz a pensamentos libidinosos? Woody Allen inspira-se no universo de Dostoyevski, o romance clássico "Crime e Castigo", para motivar a essência deste filme refinado que aborda os delírios do desejo. É um trabalho mais ardiloso e impressionista do diretor.
Qual razão para trair? Chris torna-se obcecado pela figura sexualizada de Nola, não consegue livrar-se dos desejos que manipula seus sentidos. A atmosfera crescente de tensão reveste o enredo, pois Woody Allen cria a sedução gradual entre Chris e Nola - um homem e uma mulher que não conseguem fugir do desespero do tesão; da aflição de um possuir o outro. E o perigo parece ser evidente quando ambos passam a sustentar uma tórrida relação sexual, numa teia de mentiras compulsivas. É a sexualidade da relação da traição, é o universo dos amantes sendo expostos. Chris e Nola fogem de suas vidas para vivenciar um sexo faminto, uma ilusão sem cuidados. Afinal, todo ser humano não pensa o quanto doloroso é trair alguém? Nenhuma traição é descoberta? Chris representa um homem disposto a manter uma vida de luxo, imerso numa teia de mentira do seu matrimônio, ainda que sinta uma paixão avassaladora pela amante.
O universo dramático do filme aumenta quando a relação dos dois se intensifica. Afinal, tudo que ocorre na vida é acaso da sorte? A construção da infidelidade é o foco primordial estabelecido por Allen, ainda que ele também exponha reflexões sobre assuntos de amor, família e preconceito social. Num jogo instigante sobre rede de relacionamentos, desejos e encontros amorosos - o diálogo com a moralidade também é verbalizada.
E Allen mostra que, muitas vezes, um relacionamento iniciado em mentiras e segredos - nem sempre é duradouro. A infidelidade machuca? O perigo é nítido, assim como o senso de destruição. Inicialmente, Chris sustenta seu vício no sexo pela mulher que o induz à libertinagem. Consumido pelo desejo, só consegue pensar nos momentos pequenos que pode transar e sentir o corpo de Nola. Após a consumação do ato, permanece o sentimento? É o que coloca o diretor roteirista neste filme. E a densidade ganha formas trágicas quando Nola passa a sentir-se indisposta quando à indecisão de Chris - deveria ele abdicar de sua vida cômoda em luxo e aparências? Ou assumir esta relação que começou como um fogo de paixão sexual? Eis o lema da infidelidade - a relação, tanto para o conjugue, quanto para o amante, torna-se inviável. É necessário escolhas, há momentos que o sufoco é crescente, o martírio também. O mundo de luxúria ganha preocupação quando Chris reavalia seus atos, reflete seu mundo interior e exterior. Instaura-se nele um desespero diante da pressão de Nola em ser valorizada e assumida - ela não se conforma com sua condição de amante -, ao passo que o desequilíbrio se opera em sua vida. Chris e Nola atingem uma relação perigosa, num tormento permanente. A espiral de desentendimentos e discussões atiça e queima fogo no mundo de sexo, paixão e desejo.
Como ceder às tentações e manter uma relação estável, com boa ética? Allen conduz seus personagens com cuidado, o psicológico exposto através do tom intimista, delineando sensações e anseios bastante tangíveis. É interessante a proximidade, pois é um roteiro coerente com os sentidos humanos. A construção da ambientação dos diálogos, da maneira como a câmera percorre os atores em cena e até o uso da trilha sonora é detalhada - a impressão de que um pequeno universo tenso é desnudo aos olhos de quem observa.
A atmosfera de adultério transforma o filme num drama energético trágico, é quando certas reviravoltas tomam proporções maiores. A concepção interpretativa de Jonathan Rhy-Meyers é contida, ele coloca uma aura misteriosa que seu personagem pede - um ator bastante talentoso. Porém, é Scarlett Johansson que aqui compõe uma personagem dotada de sensualidade e emoção, expressividade interpretativa. Um filme que pauta a condição da culpa, acima de tudo. Woody Allen conduz um estudo sobre como o ser humano pode ser dono de seu destino, mas a sorte pode abusar providenciando surpresas. E como o sexo provoca infortúnios ao homem, limitado aos desejos carnais que retiram o senso racional. A favor de retratar questões do existencialismo, das falhas e dúvidas inerentes a todos humanos, o diretor constrói aqui sua pequena obra-prima.
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