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Manderlay
Manderlay (Dinamarca/2005)
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Existem certos filmes que 5 estrelas como nota não são suficientes, “Dogville” é um desses casos. O longa de 2003 é primoroso, esteticamente revolucionário e conta com aquela que talvez seja até o momento a melhor performance feminina do século XXI, com Nicole Kidman vivendo Grace. “Manderlay” não é tão bom quanto “Dogville”, mas tendo em vista o acima dito seria injusto lhe dar uma nota inferior a 5 estrelas. Apesar do cenário desta vez não surpreender, a partir do ponto que aqui você já espera pela falta do mesmo, o filme conta com momentos brilhantes.
Talvez o grande problema do filme seja o tempo que você leva para se acostumar com Bryce Dallas Howard (“A Vila”) no papel de Grace. É provável, e isso aconteceu comigo, que você nem chegue a se acostumar. A filha de Ron Howard não consegue em momento algum passar para o telespectador a força que Nicole passava. É importante destacar que Bryce está muito bem, o problema é compará-la com Nicole. Curioso será no próximo e último filme da trilogia, “Washington”, em que, segundo Lars von Trier, Grace será vivida pelas duas atrizes (!!!).
Após deixarem para trás a cidade de Dogville, Grace e o pai (antes James Cann, agora Willem Dafoe) acabam por acaso nos portões da fazenda de Manderlay, no sul dos Estados Unidos. Lá, Grace descobre uma estrutura escravagista em pleno funcionamento, apesar da escravidão já ter sido abolida há 70 anos. Na fazenda, Grace se envolve nas relações entre os empregados negros e seus patrões e, com a ajuda de seus gangsteres, “toma” a fazenda de seus donos com o intuito de entregá-la para os escravos um tempo depois. Qualquer semelhança com a política americana no Oriente Médio não é mera coincidência!
O filme brinca com o ideal deturpado que os Estados Unidos têm da palavra “liberdade”. Mostrando o que todo mundo já sabe (menos os americanos, aparentemente), que outros pontos de vista devem ser respeitados. É possível encontrar no filme também ideais socialistas pregando que, antes de condenadas, atitudes anti-democráticas devem ser analisadas e só depois julgadas.
Além de uma crítica feroz à política da terra do Tio Sam, o filme é também um manifesto contra o racismo. Em determinado momento do filme, o personagem de Danny Glover fala que os escravos não estão preparados para serem livres, pois a sociedade não está preparada para recebê-los. “E não estará daqui a 100 anos”, completa ele que, infelizmente, está correto. Em tempos em que jogadores negros são chamados de macacos nas terras européias e os negros de uma metrópole são esquecidos em meio ao furacão Katrina, em uma cidade não muito longe da fictícia Dogville, “Manderlay” é um filme a ser assistido.
A direção de Lars von Trier é brilhante. O cenário, apesar de não mais revolucionário, chega a ser mais bonito do que o de “Dogville”, com direito a uma mansão belíssima (imagino). Aqui também temos mapas, que colocados na tela geram seqüências geniais.
Além de Dallas Howard, Dafoe e Glover, estão no elenco do filme: Lauren Bacall, Chloë Sevigny, Udo Kier e Jeremy Davies. John Hurt mais uma vez assume, com primor, o papel de narrador do filme. John C. Reilly chegou a rodar algumas cenas de sua participação no filme, mas após saber que um jumento seria assassinado nos sets de filmagens abandonou as gravações. No corte final, von Trier acabou cortando a cena do jumento no longa.
Com um final apoteótico, talvez tão bom quanto o de “Dogville”, “Manderlay” teve pré-estréia no Brasil no Festival do Rio 2005. Agora nos resta esperar por “Washington”.
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Lucas Salgado
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