Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes, Oren Moverman
Elenco: Cate Blanchett (Bob Dylan/Jude), Richard Gere (Bob Dylan/Billy), Julianne Moore (Alice), Heath Ledger (Bob Dylan), Charlotte Gainsbourg (Claire), David Cross (Allen Ginsberg), Bruce Greenwood (), Christian Bale (Bob Dylan/John/Jack), Michelle Williams (Coco Rivington), Ben Whishaw (Bob Dylan/Arthur), Marcus Carl Franklin (Bob Dylan/Woody), Benz Antoine (Bobby Seale/Rabbit Brown)
Duração: 135 min
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Gênero: Drama, Musical
Se eu fosse resumir “Não Estou Lá” em uma única palavra, essa palavra seria “caos”. Caos total e absoluto. E isso em qualquer filme seria provavelmente uma coisa ruim. Mas estamos falando de Bob Dylan e, bem, Dylan é Dylan... Ok, não estou sendo muito claro. E, de certa forma, “não ser muito claro” também foi a idéia de Todd Haynes ao dirigir “Não Estou Lá”. Afinal, se o tema de uma obra é indecifrável, porque a obra em si não deve ser? Mas mesmo assim vamos tentar dissecar esta que foi, sem dúvida, uma das melhores produções cinematográficas de 2007.
Eu poderia começar dizendo que “Não Estou Lá” é uma biografia do cantor e compositor Bob Dylan, mas quem caísse no ledo engano de procurar no filme uma descrição cronológica ou pelo menos factual da carreira do músico viria mais tarde me pedir satisfações. “Não Estou Lá” é uma viagem surreal que faz referências, quase sempre obscuras, às diferentes fases da carreira e da vida de Bob Dylan. O cantor é representado não por um, mas por seis diferentes atores, que dão vida a personagens que nem dividem entre si o mesmo nome, que a propósito não é o do cantor. Na verdade, em nenhum momento do filme fica explícita a relação entre o músico folk e as personagens do longa. Não bastasse essa pluralidade de interpretações, entre os atores está uma mulher, Cate Blanchett, e um garoto negro, Marcus Carl Franklin, ambos também representando fases da vida de Dylan. Completando o elenco de “Dylans” ainda temos Christian Bale, Heath Ledger, Ben Whishaw e Richard Gere. Cada um encarnando não só uma fase, mas também uma face dentre as inúmeras que Dylan parece possuir.
Tentando futilmente colocar alguma cronologia no filme (que a propósito nem se mantém no mesmo segmento, pulando entre as várias personagens com desconcertante freqüência), a história se inicia com Woody (Marcus Carl Franklin). Woddy é um menino negro que diz estar na estrada há anos (apesar da pouca idade), tocando sobre o povo simples do interior e vivendo aventuras inverossímeis com o circo, mas revela uma visão um pouco calculista demais sobre seu papel como trovador itinerante. O jovem Carl Franklin impressiona com a maturidade de sua atuação ao interpretar Woody, lembrando outro cantor negro que começou cedo a vida de músico na estrada: B.B. King. Se você não entendeu onde essa parte da história se liga a Bob Dylan, Woody é uma referência a Woody Guthrie, cantor folk da década de 40 a quem Dylan atribui sua inspiração no começo da carreira. Daí passamos para Jack (Christian Bale), um jovem que surge no cenário tremendamente artístico da Greenwich Village dos anos 60, com um estilo folk marcante e letras de cunho bastante político. Jack inicia uma relação com a cantora Alice (Julianne Moore), mas acaba jogando tudo para o alto, mudando seu estilo musical e terminando sua relação com Alice. Jack não só representa um momento bastante conhecido da carreira de Dylan como também é onde o diretor Todd Haynes pôde se sentir mais em casa. Para este trecho, Haynes escolheu Julianne Moore e Christian Bale, atores que já haviam trabalhado com ele (Moore em “A Salvo” e no recente “Longe do Paraíso”; e Bale em “Velvet Goldmine”). A base biográfica também não é tão obscura: após se mudar de Minnesota, o bairro de Greenwich Village, em Nova York, foi a primeira parada do jovem Dylan no início dos anos 60. Foi nessa época que Dylan compôs “Blowin´ in the Wind” e outros trabalhos mais politicamente engajados. Foi também no Village que ele conheceu a cantora folk Joan Baez, inspiração para a personagem Alice. A primeira quebra no estilo do compositor também acontece nessa época, quando ele lança o álbum “Another Side of Bob Dylan”, em 1964, e deixa de lado a música de protesto.
Continuando a busca por uma identidade cronológica em “Não Estou Lá”, o desafio a partir de meados dos anos 60 se torna muito maior. A partir desta etapa, 3 personalidades de Dylan se sobrepõem. Robbie (Heath Ledger) é um ator apaixonado por motocicletas morador de Greenwich Village e apaixonado por Claire (Charlotte Gainsbourg); Jude (Cate Blanchett) é um cantor que se entrega à arte e a vida de excessos inteiramente, chocando seu público com uma mistura de folk e os instrumentos eletrizados do rock; e Billy (Richard Gere), numa versão bastante maluca de Billy the Kid, vive em reclusão no campo até que o reencontro com seu arquiinimigo Pat Garrett o faz abandonar seu esconderijo.
Robbie representa a vida amorosa de Bob Dylan, sua relação com Suze Rotolo e com Sarah Loundes, destacando as composições mais românticas do período entre os álbuns “The Freewheelin' Bob Dylan” e “Blood On The Tracks”. Robbie também representa a paixão de Dylan por motocicletas e o acidente de moto em que quebrou o pescoço em 66. Coube ao talentoso Heath Ledger interpretar Robbie, em seu penúltimo papel antes da prematura morte do ator.
Jude é praticamente um alter ego de Robbie, já que retrata Bob Dylan praticamente no mesmo período, mostrando seu lado mais artístico e indecifrável. Não só musicalmente, como também fisicamente, esta é a visão mais difundida de Dylan, com seu cabelo alto e bagunçado e andar taciturno. Seu aspecto era tão incomum que Toddy Haynes resolveu que uma mulher deveria interpretar este Dylan e chamou Cate Blanchett para o papel. E Blanchett fez sua parte. Não só a atriz soube incorporar o espírito da personagem, como ela se destaca como a melhor interpretação do filme. Um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar foram apenas uma parte do reconhecimento recebido por Blanchett, que criou, através de Jude, um ser tão esquisito e interessante quanto o Dylan que chocou seus fãs ao misturar o rock ao seu estilo folk e enfureceu jornalistas musicais dos anos 60.
Billy é a mais “viajada” das visões de Dylan. Richard Gere, como sempre no papel de Richard Gere, criou uma versão do músico inspirada em “Billy, the Kid”, mostrando-o velho e escondido em uma pequena cidade chamada Riddle (charada, em inglês). Sua vida pacata é abalada pela chegada de seu inimigo Pat Garrett, representado por Bruce Greenwood, que é também o jornalista Sr. Jones, crítico ferrenho de Dylan e que aparece no segmento de Jude. Várias interpretações cabem neste trecho: a primeira seria uma referência ao álbum “Pat Garrett and Billy the Kid”, de 1973, que colocou Dylan pela primeira vez no topo das paradas americanas com o single “Knockin´ on Heavens Door”; a segunda seria uma referência aos vários períodos de reclusão do músico, o primeiro deles em Woodstock, em 67, logo após seu acidente de moto; outra interpretação seria as constantes referências que Dylan faz às raízes da música americana; ainda caberia uma referência às várias indisposições entre o músico e a crítica especializada, representada nesse caso pelo jornalista Sr. Jones/Pat Garrett.
O único ator que aparece em diferentes fases da vida de Dylan é Christian Bale, aparecendo também no papel do Pastor John, um novo cristão que usa seu talento na música para o gênero gospel. A conversão de Dylan em 1979 do judaísmo para o cristianismo foi uma das controversas mudanças na sua carreira e rendeu composições gospel no período de 1979 até 1981.
Permeando toda esta confusão, Ben Whishaw é o Dylan de 1965, irônico e controverso em suas diversas entrevistas naquele ano. Ele funciona como um narrador, amarrando as várias histórias com citações de entrevistas de Dylan e sob a alcunha de Arthur, referência ao poeta simbolista do século XIX, Arthur Rimbaud, que influenciou fortemente a música de Bob Dylan.
Tantas faces, tantos atores, tanta informação existe dentro de “Não Estou Lá”, que fica muito difícil se concentrar em algum aspecto específico do filme. A impressão inicial é que quem não conhece a vida do músico, ou pelo menos nunca conferiu documentários sobre sua carreira (como o excelente e altamente recomendado “No Direction Home”, dirigido por Martin Scorsese), acaba ficando de fora em muitas passagens do filme. Mas o filme é tão surreal que pode ser uma perda de tempo tentar esmiuçar as referências biográficas em cada parte. “Não Estou Lá” é antes de tudo uma obra ficcional, o resultado da mistura do mito de Bob Dylan na cultura popular americana dos últimos 40 anos. É um filme sobre a influência de Dylan, não sobre o músico em pessoa. Este... não está lá.