Direção: Clint Eastwood
Roteiro: William Broyles Jr., Paul Haggis
Elenco: Barry Pepper (Mike Strank), Jesse Bradford (Rene Gagnon), Paul Walker (Hank Hansen), Robert Patrick (Coronel Chandler Johnson), Neal McDonough (Capitão Severance), Jayma Mays (Enfermeira), Jamie Bell (Ralph Ignatowski), Ryan Phillippe (James Bradley), Beth Grant (Sra. Gagnon), Adam Beach (Ira Hayes), Joseph Cross (Franklin Sousley), David Hornsby (Louis Lowery), Melanie Lynskey (Pauline Harnois), Benjamin Walker (Harlon Block)
Duração: 132 min
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Gênero: Drama, Guerra
“Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”, disse Bertolt Brecht. Tal frase representa com maestria o pretendido por Clint Eastwood em “A Conquista da Honra”. Diretor de obras-primas como “Os Imperdoáveis” e “Menina de Ouro”, Clint critica duramente a indústria da guerra norte-americana, atacando justamente a figura mais querida na terra do Tio Sam, a do herói de guerra. Apesar de desmitificar a noção de herói norte-americano, Eastwood, apresentando-se como um humanista convicto, trata seus personagens com muito carinho e respeito.
É impossível falar de “A Conquista da Honra” sem mencionar “Cartas de Iwo Jima”, que é ainda mais brilhante. Os dois filmes apresentam prismas diferentes de uma mesma batalha. Quando todos (inclusive eu) acreditavam que não faltava nada para o cinema mostrar sobre a Segunda Guerra Mundial, Eastwood prova, com dois filmes, que muita coisa aconteceu além das fronteiras de Hitler. A batalha de Iwo Jima foi um dos momentos mais importantes da guerra para os Estados Unidos. Ao tomar a sagrada ilha japonesa, os norte-americanos puderam montar uma base próxima ao Japão para revidar o ataque à Pearl Harbor.
As imagens da chegada das tropas americanas à ilha não deixam nada a desejar com relação ao desembarque na Normandia em “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg. Mas as cenas de ação não são o ponto forte do filme de Clint, ao contrário do de Steven. Aqui o que realmente importa são as conseqüências da batalha, para aqueles que lutaram e para aqueles que assistiam de longe.
Poucas vezes na história da humanidade a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras” foi tão bem enquadrada quanto na batalha de Iwo Jima. Durante a mesma, o fotógrafo Joe Rosenthal tirou uma foto de soldados americanos erguendo a bandeira em solo japonês. Este simples ato patriótico encantou a população dos Estados Unidos e foi usado pelo governo para arrecadar fundos para a guerra. Os soldados da foto foram levados de volta para os EUA. Dos seis que levantaram a bandeira, somente três retornaram vivos: John “Doc” Bradley (Ryan Phillippe, de “Crash - No Limite”), um membro do corpo médico da Marinha; Ira Hayes (Adam Beach, de “Códigos de Guerra”), um americano tímido de descendência indígena; e René Gagnon (Jesse Bradford, de “Fixação”), um mensageiro de campo de batalha. O trio passou então a peregrinar pelo país pedindo à população que contribuísse para continuarem com a guerra. A estratégia funciona, o povo norte-americano idolatra os três e contribui consideravelmente. Mas Doc, René e, principalmente, Ira não se sentem muito bem com a situação, uma vez que são tratados como heróis apenas porque levantaram uma bandeira, enquanto seus companheiros continuam se sacrificando nas areias negras de Iwo Jima.
“Havia algo naquela fotografia. Ninguém sabe exatamente o que ela representa - talvez seja apenas uma foto de homens levantando um mastro; talvez seja assim que os seis homens da fotografia vejam a si mesmos. Mas, em 1945, aquilo representava um esforço de guerra. Como um contraponto a uma das mais sangrentas batalhas da guerra, a fotografia simbolizava o que estava em jogo, aquilo por que eles estavam lutando. E quando se descobre o que aconteceu com aqueles rapazes, como foram retirados dos campos de batalha, levados para casa, para fazer viagens promocionais, isso causa um jogo de emoções complexas, especialmente para quem tem 19, 20, 22 anos”, afirmou Clint Eastwood, que se encantou pela história assim que leu o livro homônimo de James Bradley e Ron Powers.
Eastwood teve interesse em adaptar o livro para o cinema logo após seu lançamento em maio de 2000, mas seus direitos já haviam sido vendidos para Steven Spielberg, que pretendia dirigir o longa. Em 2001, Spielberg contratou William Boyles Jr. para escrever o roteiro, mas não gostou do resultado final e engavetou o projeto. Ao encontrar Spielberg na cerimônia do Oscar de 2005, Clint falou que pretendia dirigir a história. O diretor de “Tubarão” gostou da idéia e passou para o cargo de produtor. Para corrigir as falhas no roteiro, Clint chamou um grande amigo, o onipresente Paul Haggis, de “Menina de Ouro”, “Crash - No Limite”, “007 - Cassino Royale” e “Um Beijo a Mais”.
Além das mencionadas presenças de Phillippe, Beach e Bradford, o filme conta com a participação de vários atores famosos nos EUA, a saber: Jamie Bell (“King Kong”), Paul Walker (“Velozes e Furiosos”), Robert Patrick (“O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final”), Barry Pepper (“Fomos Heróis”), Neal McDonough (“Minority Report A Nova Lei”) e Beth Grant (“Pequena Miss Sunshine”).
Orçado em US$ 55 milhões, “Flags of our Fathers” (no original) foi um fracasso de bilheteria, tendo arrecadado somente US$ 33,5 milhões nos Estados Unidos. Mas nada mais compreensível para um filme que critica a indústria da propaganda bélica norte-americana e seus heróis, que surgem a cada nova batalha. Veja a controversa Guerra do Iraque, por exemplo. Quem não se lembra daquela oficial americana que foi seqüestrada e depois resgatada dentro de um hospital? Virou até filme (“O Resgate de Jessica Lynch”).
Indicado ao Oscar de melhor som e melhor edição de som (não é a mesma coisa!), “A Conquista da Honra” promete se sair melhor nas bilheterias de outros países. Com uma bela e minimalista trilha sonora composta por Clint Eastwood (sim, ele também compõe!), o filme foi rodado nos Estados Unidos, no Japão e na Islândia. Como o governo japonês não autorizou as filmagens das cenas de batalha na ilha de Iwo Jima, cujo solo é considerado sagrado, Eastwood foi obrigado a levar sua equipe para Islândia, onde aproveitaram as praias de areias negras para rodar as magníficas seqüências de ação.
Com uma marcante direção de fotografia de Tom Stern, que deixa o filme quase em preto-e-branco, remetendo aos clássicos da era de ouro de Hollywood, “A Conquista da Honra” teve suas latas distribuídas nos cinemas dos Estados Unidos com o nome de “Montana”, em uma medida para evitar a pirataria. Além disso, o primeiro rolo do filme foi enviado separadamente.
Sem perder a oportunidade de tratar outros temas importantes, como o preconceito, através do personagem com origem indígena, o filme mostra que aos 76 anos Clint Eastwood está no melhor de sua forma. Aquele que um dia foi o brucutu sem nome dos filmes de Sérgio Leone é hoje o mais produtivo cineasta norte-americano. Não foi por outro motivo que Warren Beatty ao ser homenageado no Globo de Ouro 2007 “criticou” Clint por lhe fazer sentir mal, uma vez que faz uma obra-prima atrás da outra. Deve ser mesmo difícil para outros cineastas conviverem com a produtividade de Eastwood, mas nós cinéfilos só agradecemos!
Não deixe de ver “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”. Os filmes funcionam individualmente, então se quiser ver só um vai gostar. Mas não faça isso, não perca a oportunidade única na história de Hollywood de se conferir duas perspectivas sobre a mesma batalha, mostrando inclusive pontos de vista diferentes sobre uma mesma cena.
Ao contrário dos habituais filmes de guerra, aqui não existem mocinhos e bandidos. Não existem vencedores e perdedores. Existem homens que tiveram suas vidas abaladas pelos efeitos da guerra.
OBS: Não saia da sala antes do final dos créditos. Há uma bela homenagem de Clint aos homens que lutaram em Iwo Jima.