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Estômago
Estômago (Brasil/2007)
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Ano passado a melhor surpresa que tive com o cinema nacional não foi o tão aclamado “Tropa de Elite”. Claro que este mereceu todos os elogios e prêmios, mas enquanto o filme de José Padilha já estreava trazendo enormes expectativas, outro filme também excelente chegou aos cinemas em 2007 sem muito alarde. Tratava-se de “O Cheiro do Ralo”, excelente produção independente, filmada com baixo orçamento e fora do eixo Rio - Globo Filmes. A trama de humor negro protagonizada por Selton Mello acabou ganhando destaque através do boca-a-boca e recebeu o reconhecimento merecido, mas isso só depois de sua modesta entrada no circuito. Esse ano fui surpreendido de novo. E o filme que me surpreendeu foi “Estômago”. Marcos Jorge estréia na direção de longas-metragens com “Estômago”. Mas o diretor não é nenhum novato no cinema. Ganhador de diversos prêmios na produção de curtas-metragens, vídeos e trabalhos publicitários, Marcos Jorge inicia sua carreira em longas por trás de sua produtora, a Zencrane Filmes. E é nas palavras do próprio diretor que vem a justificativa para a temática de seu primeiro longa: “...acredito profundamente em procurar a verdade nos aspectos mais simples da existência humana, nos aspectos mais básicos, essenciais e ancestrais, entre os quais elenco entre os primeiros lugares a alimentação... No ‘Estômago’, o que queríamos era mostrar a beleza dos pratos populares, e a preparação deles em ambientes, como freqüentemente acontece, precários. Mesmo assim, queríamos que o filme deixasse o público com fome.” E com fome ficamos. Da coxinha ao gorgonzola, “Estômago” é cozinha para todas as classes. A história de “Estômago” se passa em uma capital do sul do país, mas poderia ser em qualquer grande cidade (alguns elementos indicam que se trata de Curitiba, mas isso realmente não importa à trama). Raimundo Nonato (João Miguel) acaba de chegar à grande metrópole. Sem dinheiro e sem moradia, Nonato acaba trabalhando no boteco de Zulmiro, onde frita salgadinhos e faz faxina em troca de comida e um quartinho nos fundos. A habilidade de Nonato na cozinha rapidamente chama atenção. Na casa agora cheia por causa das coxinhas e pastéis do cozinheiro, ele encontra duas pessoas que irão mudar seu rumo: Giovanni, um dono de restaurante italiano que lhe oferece um emprego onde poderá aprender a cozinhar; e Íria, uma prostituta gordinha com quem vive uma relação de paixão e comida. Paralelamente, o filme mostra um outro momento na vida de Nonato. Agora ele está preso, condenado por um crime que não é revelado. Aprendendo que na prisão ele também precisa conquistar seu espaço, ele usa suas habilidades culinárias para ganhar os estômagos dos presos, aumentando seu prestígio na cela, chefiada por Bujiú. Alternando entre momentos de comédia e drama, o longa tem motivos de sobra para conquistar o espectador. A comédia, graças à excelente atuação de João Miguel (de “O Céu de Suely” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”), usa da situação de migrante do protagonista para criar situações hilárias, mas sem o engajamento da crítica social. O desencontro entre a cozinha popular e o aprendizado de Nonato no restaurante também geram excelentes momentos de comédia já na primeira cena do filme, quando Nonato explica para os detentos o que é gorgonzola. Humor que serve apenas como tempero para o drama de um homem que começa a vida sem nada e descobre que na cidade grande tudo gira em torno de poder. E que esse poder é conquistado até mesmo pela boca. Por trás da boa comida e da história de ascensão e queda de Nonato, “Estômago” é um filme sobre poder. Nas duas realidades em que vemos o protagonista, o “paraíba”, “cearense” ou “parmalat”, como é chamado inicialmente Raimundo, ganha prestígio, ganha um nome (na cadeia ele é Alecrim), ganha respeito. E se você agora se pergunta qual o crime que Nonato cometeu... bom, esse é o toque final que vai te manter grudado na cadeira até o final do filme.
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Gustavo Catão
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