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Um Homem Sério
A Serious Man (EUA/2009)
crítica por Gustavo Catão
Os irmãos Joel e Ethan Coen ficaram famosos por seus filmes densos e quase sempre violentos, centrados em dramas sobre pessoas comuns que acabavam às voltas com algum crime. “Um Homem Sério” foge um pouco destes elementos tradicionais na cinematografia dos irmãos, mas fundamentalmente ainda trata de violência, ao retratar um professor (Michael Stuhlbarg) de classe média nos anos 50 que vê sua vida e seus princípios morais atacados por todos os lados. Indicado aos Oscars de melhor filme e melhor roteiro original em 2010, “Um Homem Sério” consegue ser brutal sem uma gota de sangue.
Larry Gopnik (Stuhlbarg) é um professor de física vendo sua vida desmoronar: sua esposa quer se separar e casar com um antigo amigo do casal; o filho escuta rock e fuma maconha na escola de hebraico; a filha rouba dinheiro da sua carteira; o irmão mora no sofá de sua casa e tem problemas com jogo; um aluno lhe suborna e depois tenta chantageá-lo; o vizinho quer tomar um pedaço do seu quintal. Todas essa pressão sobre aquele homem que tentou viver uma vida lógica e séria se amontoam sobre Gopnik e esperamos o momento em que ele não vai mais aguentar e explodir num acesso de fúria contra aquelas pessoas e sua religião (a cultura e a religião judaica são elementos dominantes no filme). Mas como na história de Jó, Larry não se entrega e continua suportando todos aqueles percalços em sua vida enquanto pergunta à sua fé: o que Deus quer de mim? E são os confrontos de Larry com sua fé que dão o ritmo do filme, separado nos três encontros que o protagonista tem com os rabinos de sua comunidade. E há tanto significado por trás de cada diálogo dos rabinos que poderíamos nos perder por horas em interpretações do filme. De certa forma, eles representam o amadurecimento do próprio protagonista ao longo do filme. O primeiro rabino (interpretado pelo divertido Simon Helberg, da série “The Big Bang Theory”) é a voz da juventude, vendo o mundo com uma nova perspectiva. O rabino Nachtner é a voz adulta que sabe as perguntas, mas não tem as respostas e encara a vida como um grande mistério de seu Deus que ele deve apenas aceitar. E o velho rabino Marshak é a voz da experiência que diz apenas “seja um bom garoto”, através de seu encontro (diga-se de passagem, hilário) com o filho de Larry, Danny. E seguindo o conselho de Marshak, o filme avança, com Larry descobrindo que problemas vão, novos problemas vem, e a vida sempre terá incertezas (interessante notar que ele mesmo dá aulas sobre Princípio da Incerteza em suas aulas de Física, apesar de esperar uma vida lógica e previsível).
Não há dúvida que este é um filme bastante pessoal para os Coen. Passado na Minnesota dos anos 60 (onde os dois passaram suas adolescências), “Um Homem Sério” é tão minucioso quanto à comunidade judaica de classe média em que o protagonista vive, que não é difícil imaginar este filme como o mais pessoal da carreira dos irmãos. Só como exemplo, o nome dos garotos no ônibus da escola de Danny são nomes de colegas de escola dos Coen naquela mesma época. Assim como restaurantes, mercados e bares, como o clube The Hole, onde a filha de Larry ia todos os dias, e que foi o ponto de encontro dos estudantes da Universidade de Minnesota no final dos anos 60.
O elenco também é um bom indicativo de como os Coen encaram de forma diferente este projeto. Ao invés de caras conhecidas e muitas vezes elencadas pelos diretores, os Coen preferiram nomes bem menos conhecidos, provavelmente bem mais próximos da realidade de suas juventudes. Repleto de excelentes atuações, destacando-se Michael Stuhlbarg no papel de Larry, o filme ainda conta com a excelente atuação de Fred Melamed, no papel do amante da esposa de Larry, Sy Ableman. Também se destaca o jovem Aaron Wolff, no papel de Danny.
Após o Oscar de melhor filme com o excelente “Onde os Fracos Não Têm Vez”, “Um Homem Sério” com certeza ficará apagado no meio de tantos grandes filmes na carreira destes diretores. Uma grande injustiça com um filme que combina drama e humor negro como poucos. Esta jóia da carreira dos diretores não deve ser deixada de lado ou ignorada.
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