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crítica de Halloween - A Noite do Terror


por Zé Felipe, 8 de março de 2012

Antes de ser reinventado como um feriado cristão, o Halloween era uma comemoração pagã: o dia dos mortos celta. Conhecido como Samhain, o 31 de Outubro era quando espíritos vingativos voltavam para assombrar os Druidas bretões e irlandeses. Nessa ocasião, eles se reuniam para agradecer ao Deus Sol pela boa colheita e preparavam-se para o inverno. Se as coisas não foram bem no verão, sacrifícios de animais (e às vezes humanos) era a ordem do dia.

O Dia das Bruxas é o ponto de partida para "Halloween – A Noite do Terror". O filme é guiado pela caçada desesperada ao psicopata Michael Myers, que aterrorizará a pequena Haddonfield depois de escapar do hospital psiquiátrico. Quem conduz a busca é o Dr. Sam Loomis (Donald Pleasence), o psiquiatra de Michael. Aterrorizado, Loomis conta ao xerife da cidade que detrás do rosto impassível e dos olhos negros do seu paciente ("olhos do diabo," diz) se esconde o mal absoluto. Loomis sabe que Myers vai matar de novo e fará tudo para impedi-lo.

"Halloween" sacudiu a indústria cinematográfica americana como poucos filmes de terror antes dele. Uma parte do seu legado foi criar, da noite pro dia, o subgênero conhecido como "splatter" ou "slasher films", onde um grupo de jovens de moral duvidosa são brutalmente chacinados por um personagem com distúrbios mentais. Outra foi marcar a estréia no cinema da atriz Jamie Lee Curtis, no papel de “Laurie Strode”. (Curiosamente, Jamie é filha de Janet Leigh, a “Marion Krane” de "Psicose", sabidamente uma das inspirações para "Halloween".)

John Carpenter, o diretor do file, usou um recurso inovador em "Halloween": o stalker POV, ou stalker point of view". No stalker POV, a câmera é manipulada de uma forma que simula o ponto de vista de uma pessoa observando outra de longe, escondida. Até os movimentos repentinos da câmera simulam os movimentos bruscos de um voyeur, escondendo-se atrás de obstáculos físicos, com receio de ser visto. Esse ponto de vista da câmera gera grande ansiedade, porque sabemos que alguém está lá – mas não sabemos onde ele está, como ele é ou qual a sua intenção.

Além do stalker POV, o outro destaque de "Halloween" é a sua trilha. Composta em três dias com um orçamento miúdo, a música do filme é o reflexo de Michael Myers – fria, impetuosa e implacável. Seu tema central se tornou um clássico do cinema, tão reconhecível quanto os temas de "Tubarão" ou da série "Guerra nas Estrelas".

O centro da peça, lógico, é o tema de Michael Myers. Como não mencionar seu inesquecível tema central, um exercício minimalista de piano e sintetizador, num estranho 5/4? A música erudita ou popular raramente sai do compasso 4/4, e isso é uma das razões do estranhamento imediato que sentimos ao ouvirmos o tema de Halloween. Carpenter comenta que a inspiração desse tema veio de um exercício 5/4 em bongôs ensinado por seu pai, George, um professor doutorado em música.

Num capítulo do livro "The Cinema of John Carpenter: the Technique of Terror" (2004), os musicólogos Miguel Mera e David Burnand apontaram que a trilha de "Halloween" é pontuada por “gritos” sintetizados. Inclusive, por causa de seu tom agudo, essas notas tocadas no sintetizador evocariam gritos femininos. Carpenter chamava esses “gritinhos” de "cattle-prod", sons específicos para assustar a audiência.

Além de Laurie e Michael, a música é o outro grande personagem do "Halloween". Carpenter conta que uma vez mostrou o filme, sem trilha e efeitos sonoros, para alguns executivos da 20th Century Fox. Ninguém ficou assustado. Seis meses depois, ele fez a mesma coisa, agora com a trilha. Todos amaram o filme.

"Halloween" foi feito por US$ 300 mil e rendeu 55 milhões. Por muitos anos foi o filme de produção independente mais bem-sucedido da história, até o lançamento de "A Bruxa de Blair", superada depois por pelo primeiro "Atividade Paranormal". O sucesso inesperado de "Halloween" foi, provavelmente, a garantia para algumas boas produções de John Carpenter: "A Bruma Assassina", "Fuga de Nova Iorque", "O Enigma do Outro Mundo" e "Starman - O Homem das Estrelas". Carpenter, que costuma fazer a música dos seus filmes, deixou de herança para o mundo do cinema uma coleção de temas fantasmagóricas - e memoráveis, definitivamente. Eles serviram de inspiração para a música de "Resident Evil O Hóspede Maldito", "Tron - O Legado" e compositores como Hans Zimmer, o de "Batman - O Cavaleiro das Trevas" e "A Origem".

 

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