Um filme essencialmente feminino. Não feminista. De sensações e sentimentos de mulher. O que não significa água com açúcar. Muito pelo contrário. São sentimentos fortes de mulheres que se perguntam e se conhecem, que pesquisam sua individualidade num mundo de intrínsecas observações e atitudes machistas; no qual nem as próprias mulheres se dão conta do quanto estão impregnadas desta herança secular.
Anne (Juliette Binoche), uma jornalista bem-sucedida, está envolvida na redação de um artigo sobre a prostituição. E não de um tipo qualquer, especificamente, a prostituição de estudantes universitárias em Paris.
A montagem do filme é cuidadosa. Saboreamos as cenas e as descobertas sem pressa. O espaço-tempo de Elles é um dia. E neste dia, no prazo final da entrega da matéria, Anne revê sua pesquisa de campo com duas prostitutas de comportamentos quase opostos: Alicja (Joanna Kulig) e Charlotte (Anaïs Demoustier). Somado a esta reflexão, e por que não dizer, intimamente ligado a estes sentimentos, está o preparo de um jantar.
Charlotte é uma menina doce e ingênua. As cenas nas quais Anne conversa com ela são solares, florais e confortáveis. O assunto da prostituição, em seus lábios, soa como uma grande brincadeira. Chora quando confessa que o pior de toda esta situação é ter de estar sempre mentindo para as pessoas.
Já Alicja é uma jovem polonesa que escolheu a prostituição para se manter em uma vida luxuosa. Bem vestida e maquiada, é agressiva e Anne sente-se visivelmente abalada e insegura, diante das provocações da garota. Para se defender dos ataques, entra em seu jogo.
Anne encarna os casos e clientes das meninas. Chega a fantasiar seu marido transando com Charlotte. Aos poucos, vai se descobrindo como ambas e perde o seu ar um tanto arrogante do início do filme: como se ela fosse superior às ditas mulheres da vida.
É um filme de tabus. Tem coragem. Mexe na ferida. Mas, é poético. Lindamente poético.
Ao cozinhar, Anne abre as conchas para retirar a conteúdo, coloca suas mãos na manteiga e depois, por um descuido, as queima na panela. Estas mesmas mãos que digitam a reportagem, que vasculham o computador do marido e encontram um filme pornô. Ou ainda, as mãos com as quais se masturba - numa cena que, segundo a atriz, foi uma das mais trabalhosas de sua carreira.
Julliete está estupenda. Seu ar desgrenhado, o olhar expressivo, seu silêncio. Tudo desenha as cenas, conduz nossas impressões e, com perspicácia, o espectador entende as questões profundas discutidas ali.
Para refletir. E para vislumbrar novos horizontes em tabus que amarram a nossa sociedade.
As apostas sempre têm muito de nós, daquilo que nos comove. E, como já disse anteriormente, eu nunca estou muito afinada com a Academia.
Muitos filmes indicados em várias categorias me agradam, especialmente os filmes estrangeiros. O documentário de Wim Wenders, simplesmente arrebatador, tal qual a força de Pina Bausch (em breve postarei a crítica), o longa iraniano “A separação” pela temática sempre dolorida da questão da mulher, e, como não poderia deixar de ser, por questões pessoais e ideais “ Monsieur Lahzar” de Philippe Falardeau, diretor sobre o qual já escrevi em “Não sou eu, eu juro!”.
Outro grande mestre, Woody Allen, (eterno preferido para melhor diretor) merece pelo menos uma estatueta. Estou contando com a inteligência para a escolha de melhor roteiro original, já que de original “O Artista” só tem as referências e homenagens que realiza a muitos filmes clássicos, enquanto “Meia-noite em Paris” remonta a esfera de duas grandes épocas da história da arte em instância muito maior.
Quanto à indicação de melhor atriz, se Meryl Streep não levar, eu só aceito que Glenn Close por “Albert Nobbs”.
De qualquer maneira, seguem as apostas. O mais importante é que vejamos os filmes! Espero ansiosa pela estreia de muitos para dividir minhas opiniões com os leitores da Confraria:
MELHOR FILME
"O artista"
MELHOR ATOR
Jean Dujardin - "O artista"
MELHOR ATRIZ
Meryl Streep - "A dama de ferro"
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Bérénice Bejo - "O artista"
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christopher Plummer - "Beginners"
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
"Meia-noite em Paris"
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
"Os descendentes"
MELHOR ANIMAÇÃO
"A Cat in Paris"
FOTOGRAFIA
"O artista"
DIRETOR
Michel Hazanavicius - "O artista"
DOCUMENTÁRIO (LONGA-METRAGEM)
"Pina"
EDIÇÃO
"Os homens que não amavam as mulheres"
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
“A separação” – Irã
EFEITOS VISUAIS
"A invenção de Hugo Cabret"
A primeira constatação a se fazer é: a plateia do cinema jovem ou mais madura - com ouvidos tão viciados em efeitos sonoros, explosivos e gritantes, e olhos já íntimos da terceira dimensão – é, sim, perfeitamente capaz de se emocionar e de se envolver com um filme que volta ao fim dos anos 1920. Ou seja, a estética, por mais que evolua em sua técnica, não perde a força de comoção, não envelhece diante do tempo.
É claro que a experiência estético-visual de ir ao cinema é individual, mas não posso negar minha alegria ao perceber espectadores inteligentes e sensíveis, capazes de rir de piadas inocentes e de um cachorrinho brincalhão.
Para uma fã incondicional de “Cantando na chuva”, não há muito de original em “O artista”. Muitas semelhanças são detectadas: uma artista muito talentosa escondida entre as figurantes se apaixona por um já consagrado ator do cinema mudo, no justo momento em que a sincronização do áudio passa a ser possível na sétima arte. A despeito da genialidade do musical, “O artista” passa a ser original quando aborda o ego do artista neste contexto, principalmente porque a problemática da trama narrativa se dá justamente no orgulho e na dificuldade do artista entender que o seu tempo passou e que sua inabalável carreira e talento foram colocados a prova.
A originalidade não para por aí. Aos espectadores mais atentos e íntimos do tão poético cinema mudo, transparece também a utilização de ângulos bastante modernos, sem perder, é claro, o ritmo mais lento e delicado da trama.
Um plano aberto belíssimo: George Valentin (Jean Dujardin), já em decadência, encontra-se com Peppy Miller (Bérénice Bejo) que está subindo os degraus da fama. Estão na escada, ela no degrau de cima, ele no degrau debaixo. Mantem um diálogo longo o suficiente para que o espectador consiga visualizar a metáfora. E a metalinguagem não pára por aí: o pesadelo de George é um dos momentos mais ricos do filme, no qual todos os sons aparecem, menos a sua voz.
Película que homenageia uma época de ouro do cinema, entre grandes nomes da história, através das intertextualidades. E, um convite para aqueles que ainda não conhecem os clássicos, realizarem este caminho contrário, pesquisando e se emocionando com a glamourosa arte da massa e seus momentos mais doces de poesia e encantamento.
No início do filme, o espectador demora, pelo menos, três minutos para conseguir associar a brilhante atuação de Meryl Streep à idosa senhora que compra leite no supermercado como a quase senil Margaret Tachter.
É um filme de Meryl. Mais um, dentre tantos arregimentados na brilhante carreira da atriz que dá vida aos personagens mais leves (Mamma Mia, Simplesmente complicado) e mais densos (A escolha de Sofia, Dúvida). E, antes de ser um filme de Meryl, é um filme sobre uma mulher forte e vencedora em sua carreira, mas antes de tudo, uma mulher.
A maneira como Phyllida Lloyd dirige o roteiro de Abi Morgan é saída de mestre. O filme fica equilibrado na linha tênue que poderia ter descambado em um superficial romance melodramático que tem como pano de fundo acontecimentos históricos, ou poderia ter sido um documentário longo e cansativo que aprofundasse nas questões econômicas e políticas importantíssimas conduzidas pela primeira-ministra britânica.
Para uma mulher do nosso tempo, uma espectadora atual, não há como não se emocionar diante de fatos tão familiares: a humilhação sofrida pelos homens no mercado de trabalho, a dificuldade em conciliar uma grande carreira com a vida de sua família e a grande força que depositamos em não ser “mais uma mulher que morre lavando uma xícara de café sem ter feito nada pelo mundo”.
A jovem e a já madura Margaret Tachter – a dama de ferro – firme e inabalável em suas decisões escreveu seu nome na história. E a sua trajetória, em parte, explica o caráter duro e impassível da primeira-ministra mulher da história da Grã-Bretanha.
Através de flashbacks, os grandes momentos de sua vida aparecem. E são sempre filtrados pela percepção da própria personagem no centro da trama, inclusive a repercussão negativa das suas decisões e as traições políticas das quais foi vítima.
O que incomoda no filme são algumas situações retratadas de maneira piegas. Mas, nada que comprometa a dimensão comovente do filme, isto porque a trama conta também com um esforço do espectador para fazer alguns caminhos e, neste momento, ela acontece brilhantemente. Um exemplo deste é o momento no qual Magaret se despede do marido, já morto há alguns anos.
“A dama de ferro” deve ser visto como biografia de uma mulher que deixou o nome na história do mundo, sem os preconceitos esquerdistas. Deve ser visto como um registro de uma época. E deve, sim, ser aplaudido por tantos méritos em sua execução.
A beleza da melancolia. Das coisas que ficam suspensas. Não passam, mas também não se resolvem. Amor e liberdade são opostos? Ingenuidade e pureza só estão no primeiro amor?
Com doce fotografia e fortes atuações, Adeus, primeiro amor é um bálsamo delicado para as dores de amor que nunca cicatrizam. Sullivan (Sebastian Urzendowsky) é um jovem com sede de liberdade. Embora ame Camile (Lola Créton), realiza constante exercício de desapego. Camile é encantadora e sua beleza reside também em seu ar um tanto blasé, que não permite sorrisos largos, gestos desmedidos. A paixão dos dois é visível no olhar, na química do casal. As cenas são ternas, delicadas. Amor ingênuo, sem maldade, pudores: o carinho acima da luxúria.
Camile sofre muito com o desapego de Sullivan. Ele decide partir em uma viagem para América Latina com os amigos. Dez meses separados. Camile sente seu mundo ruir. Contrariada, aceita o fato, mas sofre esperando cartas e notícias do namorado. As cartas vêm carregadas de poesia, novos pensamentos… E aos poucos, Camile sente que Sullivan escapa entre os dedos, mesmo que os dois estejam ligados por um amor atemporal. Um dia, as cartas simplesmente não chegam mais. Desesperada, tenta o suicídio.
Quando a vida entra nos eixos novamente, Camile vai aos poucos se reestruturando. Mais madura, de cabelos cutos, estuda arquitetura. Conserva seu rosto sereno, sem grandes demonstrações de alegrias ou tristezas. Longos silêncios. Anotações. Comoção. Beleza. Até que um dia, uma aula diferente acontece. Lorenz, conhecido arquiteto que dá aulas na Universidade, fala sobre os efeitos da luz na construção. Aula hipnotizante. O texto desta cena é esplêndido. Com poesia, o mestre leva a reflexão para o sentimento da luz. Os alunos jogam as palavras, o ritmo se acentua. Memória. A luz significa memória. Iluminar um ambiente é lembrar-se dele. Ter uma lembrança é iluminar novamente um ambiente.
Através de pequenas e grandes luzes, Camile segue seu percurso e tenta organizar seus sentimentos. Envolve-se com Lorenz. Reencontra Sullivan. O espectador acompanha sua melancolia e impotência: a memória não é o momento, por mais luz que se coloque nela.
Encantamento e dor. Saímos da sala de projeção sentindo a fatalidade da metáfora final. O rio da vida, o vento, chapéu. Camile nada em direção a ele, mesmo sabendo que as águas do rio correm e nada será como antes.
Coluna : A palavra em alemão significa momento, instante. É composta por duas outras palavras: olho (Auge) e olhar (Blick). Ou seja, o sentido desta formação é que o momento equivale à duração de um rapido olhar, um piscar de olhos.
Colunista : Educadora e pesquisadora.
Twitter : @lopes_vivian