Só o amor não realizado pode ser romântico, diz Maria Elena (Penélope Cruz) em "Vicky Cristina Barcelona". Será mesmo? É em cima dessa premissa que Sarah Polley desenvolve o seu terceiro longa-metragem como diretora, "Entre o Amor e a Paixão". Depois de "All I Want for Christmas" e "Longe Dela", a canadense volta a mostrar plena sensibilidade nessa história que constantemente pergunta ao espectador: é pior se arrepender do que fizemos ou do que não fizemos? As dúvidas de Margot (Michelle Williams), jovem casada há cinco anos que começa flertar com um novo vizinho (Luke Kirby), são o mote do filme, que fala sobre os limites dos sentimentos, da fidelidade e dos desejos. O porém é a vontade da diretora em querer apostar sempre em um tom indie, o que faz com que "Entre o Amor e a Paixão" perde muitos pontos com o excesso de cores, figurinos, trilhas e circunstâncias que reforçam os cacoetes “alternativos” da diretora.
Quando começa a construir sua história, "Entre o Amor e a Paixão" quase alcança o nível do irritante. Se, em "Longe Dela", Polley apresentou uma maturidade surpreendente ao falar sobre as dores de um casal abalado pelo mal de Alzheimer, em seu mais novo trabalho ela parece se dar o direito de apresentar as bobeiras de uma diretora “jovem” – que, vale lembrar, não estiveram presentes no longa estrelado por Julie Christie. Das situações repletas de meiguices aos vestidos coloridos e listrados da protagonista, Sarah Polley falha ao apresentar os personagens. E não é apenas no mal amarrado encontro entre a protagonista vivida por Michelle Williams e o vizinho interpretado por Luke Kirby, mas também na forma como desenvolve o casamento dela com o cozinheiro Lou (Seth Rogen): o cotidiano dos dois se resume ao “eu te amo”, “mas eu te amo mais” e às tradicionais brincadeirinhas de casal que terminam com beijos e abraços no chão da sala. São vários minutos cheios dessas enrolações e artificialidades que quase nos fazem esquecer que estamos de uma jovem tão sensível e madura como Polley.
A insistência indie persiste por todo "Entre o Amor e a Paixão" (e, às vezes, funciona, como na cena do crazy dance ao som de Video Killed the Radio Star), mas basta o filme começar a desenvolver sua verdadeira problemática para que, pouco a pouco, a situação comece a ser revertida. Quando coloca os sentimentos da protagonista em xeque, Polley acerta com bastante segurança, pois seu filme faz questão de nos puxar de um lado ao outro. Ao mesmo tempo que entendemos a vontade de Margot de se envolver com o vizinho tamanha a atração genuína dos dois, também entendemos que tal relação não pode acontecer, já que ela é casada – e com sujeito carinhoso e que está longe de ser uma figura ruim. Se Margot tem insatisfações, elas são mais suas do que necessariamente do casamento. E assim é "Entre o Amor e a Paixão": afinal, o novo romance seria tão encantador na prática como é na teoria? Esse novo sentimento é apenas a adrenalina do flerte proibido? Ou é realmente uma nova paixão que está surgindo?
Entrando no universo de "Entre o Amor e a Paixão", logo percebe-se que o título brasileiro reduz e comercializa demais o verdadeiro teor da história, pois o filme de Sarah Polley, mesmo que insista nas idealizações tão recorrentes em filmes forçadamente indies, é reflexivo e muitas vezes doloroso. Também é eficiente a forma como ela consegue nos colocar na situação da protagonista e nos deixar até mesmo angustiados com o impasse de colocar ou não em prática a atração recém surgida. Durante um bom tempo, ficamos curiosos para saber o que Margot vai decidir. Mas de uma coisa temos certeza: ela não faz nada com a consciência tranquila e muito menos ficará com o vizinho estando casada – o que, claro, dá bastante realismo para a história. Quando desenvolve os dilemas da protagonista, "Entre o Amor e a Paixão" abandonada maneirismos e mostra a verdadeira vertente de Sarah Polley: sempre genuína e verossímil – e, por isso mesmo, incômoda e dolorosa.
O diálogo com a vida real é ampliado pelo bom trabalho de elenco. Primeiro é importante ressaltar que conseguiram controlar o frequentemente insuportável Seth Rogen, aqui contido e dentro do que o filme pede. Luke Kirby, como o vizinho, também traz o tom certo para seu personagem que poderia ser muito bem o vilão da história. Mas o destaque fica mesmo com Michelle Williams, uma atriz que nunca decepciona. Sua Margot pode até ter ecos da Cindy de "Namorados Para Sempre", mas nada que comprometa o ótimo trabalho de Williams, certeira no equilíbrio entre tudo o que existe de bom e ruim em sua personagem. A experiência de conferir Entre o Amor e a Paixão recompensa pelas questões que levanta e pelo elenco. Só que os excessos de tons e insistências indies tiram bastante a força do filme, mostrando que, em dadas passagens, Polley se preocupou mais com a embalagem do que com o conteúdo, ainda estendendo e explicando mais do que deveria os minutos finais. Mas nem por isso deixa de ser um relato reflexivo e de ter o maior atrativo de um bom drama: fazer com que acreditemos que essa história poderia estar acontecendo na porta ao lado. Ou até mesmo em nossas vidas.
Frankie Dunn, o treinador mal humorado vivido por Clint Eastwood em "Menina de Ouro", tinha problemas com uma filha distante que nunca aparecia em cena. Está certo que Clint já viveu mil vezes esse papel rabugento, mas, em "Curvas da Vida", parece que, além de acompanharmos mais uma vez esse estereótipo, também vemos uma extensão do conflito secundário apresentado em "Menina de Ouro". É uma espécie de spinoff que ainda traz um elemento importante para os estadunidenses: o beisebol (não à toa, o singelo resultado faturou mais de 30 milhões no seu país de origem). A diferença é que, aqui, o veterano diretor está apenas na frente das câmeras, contrariando a sua (falsa) promessa de que o superestimado "Gran Torino" seria seu último trabalho como ator. Porém, se Clint consegue repetir o tal papel com uma composição sempre despojada, o mesmo não se pode dizer de "Curvas da Vida", filme excessivamente convencional e frequentemente monótono.
Talvez seja nobre o motivo de Clint Eastwood ter voltado atrás de sua promessa de se dedicar apenas à direção. Aqui, ele é comandado por um amigo de longa data: Robert Lorenz, seu assistente de direção/produtor desde o belíssimo "As Pontes de Madison". Os dois teoricamente saem ganhando com a ideia de Curvas da Vida: Clint, que tem a oportunidade de fazer um trabalho de “férias”, e o próprio Lorenz, que ganhou a confiança do Dirty Harry logo no seu debut como diretor. O veterano não atuava em um filme de outro diretor desde 1993, quando fez "Na Linha de Fogo", de Wolfang Petersen, e podemos dizer que a amizade deve ter falado mais alto do que seu real interesse por Curvas da Vida. O longa de Robert Lorenz, entre tantas previsibilidades, ainda consegue repetir, em maior dimensão, o principal erro de "O Homem Que Mudou o Jogo": falar de beisebol como se ele fosse o esporte mais interessante do mundo. Basta a modalidade entrar em cena para que "Curvas da Vida" se torne tedioso, enrolado e repetitivo.
Já quando fala sobre a vida pessoal do protagonista, o cenário muda um pouco. E aí surge aquela que é a luz de "Curvas da Vida": Amy Adams. Não dá para dizer que o roteiro de Randy Brown trata a complicada relação pai-filha com qualquer originalidade (pelo contrário: qualquer espectador fã desse tipo de história conseguiria escrever aqueles dilemas), mas os dois atores são tão naturais que conseguem fisgar o espectador. Clint não precisa de comentários, e Amy não se intimida diante de sua figura emblemática: apesar de continuar sem receber o papel forte e contundente que tanto merece, ela está muito bem como a mulher contemporânea obcecada pela carreira que deseja se conectar com o pai distante e difícil. É só Amy aparecer e contracenar com Clint para que "Curvas da Vida" se torne ligeiramente mais interessante. Méritos exclusivamente dos dois, já que o texto pouco ajuda na dramaticidade, a exemplo da figura simbólica do cavalo que parece ser uma dica para algo maior, mas logo se revela outra decepção do roteiro de Brown.
Claramente, muitos elementos de "Curvas da Vida" estão ali para dar algum tipo de gás para trama e aliviar a sensação de que o filme não é exclusivamente sobre beisebol (de novo, a parte mais desinteressante de todas). Entre eles, a participação de Justin Timberlake – só que o tiro sai pela culatra: o personagem é chato e qualquer investida dele, seja cômica ou romântica, é apenas enrolação. Os próprios jovens jogadores de beisebol que aparecem com cenas exclusivas também são excessos. Tudo isso deixa "Curvas da Vida" muito lento e sem ritmo, já que falta originalidade e até mesmo maior desenvoltura (ou seria personalidade?) do diretor para deixar o filme mais agradável. Lorenz deve ter aprendido mais com Clint, e é de se esperar que, nos seus próximos trabalhos, ele demonstre que tantos anos convivendo profissionalmente com o diretor não foram em vão. Porque, a julgar por "Curvas da Vida", temos mais um diretor destinado a fazer trabalhos sustentados apenas por bons atores. Nesse caso, quem mais sai ganhando é Amy Adams.
Foi com "O Fantástico Sr. Raposo" que Wes Anderson conseguiu me convencer pela primeira vez. Adorado por obras como "Os Excêntricos Tenenbaums", o diretor sempre me pareceu superestimado, apresentando resultados questionáveis em estranhas comédias cheias de maneirismos como "A Vida Marinha Com Steve Zissou". De qualquer forma, foi com sua primeira animação que ele me fisgou: visual radiante, trilha irresistível, personagens bem desenvolvidos e humor devidamente pontuado. Coincidência ou não, ele repete – e aprimora – tudo o que apresentou em "O Fantástico Sr. Raposo" em "Moonrise Kingdom", que segue basicamente o mesmo estilo e entrega aquele que é, possivelmente, o seu filme mais interessante e melhor executado.
"Moonrise Kingdom", logo em seus primeiros momentos, já instiga com o visual: direção de arte, fotografia e paisagens utilizam tons pasteis para construir um universo vintage e fabulesco, onde a inocência está justamente no foco da história, que mostra um casal de crianças que resolve fugir de suas respectivas rotinas para viver um grande amor. O filme ainda se utiliza de personagens excêntricos, liberdades narrativas e situações inusitadas sem nunca deixar de construir situações irresistivelmente palpáveis. O estilo idílico e o núcleo dos jovens escoteiros também trazem uma certa nostalgia para "Moonrise Kingdom", que está longe de ser um filme de tom exclusivamente infantil. Pelo contrário: conforme se desenvolve, essa essência fica muitas vezes em segundo plano para dar lugar a outras abordagens.
Wes Anderson criou um filme que transita por praticamente todos os gêneros: da investigação à comédia, passando pelo romance com toques dramáticos, "Moonrise Kingdom" oferece ao espectador um sentimento genuíno de diversão, digno de matinê mesmo. Não podemos negar que, em um momento ou outro, a fusão de tantos gêneros deixa o resultado um pouco frenético, mas o que vale perceber é que todo o elenco entrou na brincadeira (incluindo veteranos como Tilda Swinton, Bill Murray e Bruce Willis) e que os jovens atores são todos ótimos. Aliás, as interpretações, além de estarem em plena sintonia com a proposta do diretor, não descambam para o caricatural, o que demonstra uma disciplina muito grande de seus intérpretes, já que os perfis dos personagens permitiriam o desvio de tom. Sim, entre crianças desajustadas, investigadores atrapalhados e traições, os personagens de "Moonrise Kingdom" poderiam ser exagerados. Mas tudo está no seu devido lugar.
É um longa divertido, prazeroso e original – o que, vale sempre lembrar, está cada vez mais raro nos dias de hoje – mas que também carrega, em suas entrelinhas, situações bastante agridoces. Sutilmente, "Moonrise Kingdom" ainda encontra espaço para falar sobre famílias desestruturadas, jovens problemáticos e casais que há muito tempo já deixaram de ser companheiros. É por fazer comédia com um tom muito controlado e por proporcionar diversão sem nunca abandonar questões mais complexas e existenciais, que Anderson se mostra cada vez mais maduro na concepção de seus universos particulares. Os cacoetes se foram e o diretor deixa bem claro que finalmente encontrou sua fórmula certeira. Um trabalho irresistível… Para qualquer plateia, arrisco dizer.
Quando voltou à ativa em "007 - Cassino Royale", James Bond estava renovado. Em tempos que o cinema de ação preza mais pela veracidade do que por qualquer trama mais fantasiosa, o agente secreto se reinventou em todos os aspectos, deixando claro, de uma vez por todas, que tramas de espionagem são definitivamente mais interessantes se moldadas de acordo com o que Paul Greengrass construiu a partir de "A Supremacia Bourne". E se Quantum of Solace, sequência do primeiro filme com Daniel Craig na pele de James Bond, foi uma verdadeira decepção, a nova abordagem de 007 nunca abandonou o tom realista, mesmo com diretores tão distintos. Agora, não é diferente com Sam Mendes, um nome que, à primeira vista, não seria associado ao mundo de Bond, mas que, nem transcorrido todo "007 – Operação Skyfall", já se mostra o melhor entre os novos diretores da franquia.
No ano em que James Bond completa 50 anos nas telas do cinema, Sam Mendes fez um trabalho exemplar atrás das câmeras. E o que mais atesta esse acerto é a habilidade de Mendes em conseguir manter todo o tom contemporâneo que a série adotou desde "007 - Cassino Royale" e ainda mexer com vários elementos que tornaram Bond um personagem icônico. De um lado, o protagonista pé no chão, que prefere o corpo a corpo ao invés de artimanhas e equipamentos mirabolantes para ganhar um confronto. Junto a ele, uma trama atualizada, apoiada em um mundo computadorizado que cada vez mais reflete a herança da trilogia Bourne. De outro, um clima de conspiração, com o protagonista cruzando o mundo (de Shangai a Londres, todas as locações são fascinantes), intrigas internas, etc. E Mendes, cercado por grandes profissionais como Thomas Newman (trilha sonora) e Roger Deakins (fotografia), consegue cruzar os dois tons com uma direção surpreendentemente segura – e também cheia de estilo.
Por outro lado, o público acostumado com tramas mais movimentadas pode se decepcionar com a primeira hora de "007 – Operação Skyfall". É nessa parte que a trama se dedica mais aos diálogos e a criar um clima mais sombrio e psicológico que, depois, culminará na chegada do verdadeiro vilão da história – figura que finalmente colocará ação na tela. Não que o filme esteja desprovido dela em seus momentos iniciais. Pelo contrário: a sequência do trem que antecede os belíssimos créditos iniciais já é um indício de que o longa se sairá bem nesse sentido. O problema é que "007 – Operação Skyfall" causa, de certa forma, estranhamento com uma primeira metade mais, digamos, subjetiva. Só que é nela que está a maioria das referências ao Bond clássico, o que, claro, será totalmente envolvente para quem as identifica. São, de certa forma, dois filmes em um, mas isso não é obstáculo para o longa de Sam Mendes.
Contudo, é só Javier Bardem entrar em ação para o filme agradar a todos. E isso se deve não só ao fato de que "007 – Operação Skyfall" se torna muito mais dinâmico como um todo a partir de sua entrada, mas especialmente pela presença de Bardem. Estavam errados os que pensavam que o ator espanhol faria uma variação de seu Anton Chigurh de "Onde os Fracos Não Têm Vez" ao assumir o papel do mais novo vilão de James Bond. Bardem nunca se repete: ele cria uma figura totalmente nova e, mais uma vez, impressiona com a composição de um personagem cheio de insanidade, trejeitos afeminados e atitudes um tanto homoeróticas. Ele rouba a cena. E vale destacar também a primeira cena dele com Judi Dench, onde, em uma prisão envidraçada, ele faz quase um monólogo sobre ódio e vingança. E quem é fã de analogias, certamente se lembrará de "O Silêncio dos Inocentes" nesse momento, quando o vilão calmo e perigoso confronta a agente de segurança com um crescente clima de tensão, já que, devido à transparência do vidro, temos a sensação de que nada os separa de fato.
Por falar em Judi Dench, a veterana (que, hoje está perdendo a visão e já necessita da ajuda de familiares e amigos para decorar suas falas) sempre foi uma coadjuvante de luxo como a eficiente M. Agora, no entanto, a situação já é bem diferente. Dench, de chefe que só serve para dar ordens ao protagonista, passa a ser uma figura fundamental em todo o desenvolvimento de "007 – Operação Skyfall". M agora dá sentido a praticamente todo o filme e é um deleite ver uma atriz tão especial como Judi Dench ser devidamente aproveitada. Méritos, mais uma vez, de Sam Mendes, diretor que tem suas origens justamente no desenvolvimento dramático de personagens (seu Oscar por "Beleza Americana" não foi à toa) e que aqui extrai de Judi tudo o que ela tem para oferecer de melhor para a personagem. Do drama à comédia, ela, ao lado de Bardem, é um dos grandes destaques do filme. Daniel Craig, cada vez mais seguro de sua responsabilidade, teve sorte de atuar com os dois.
Em todos os sentidos, "007 – Operação Skyfall" apaga a má impressão deixada pelo preguiçoso "007 - Quantum of Solace" e revigora ainda mais o mundo de James Bond. Sam Mendes está de parabéns por ter feito com tanta precisão um filme que serve como homenagem aos 50 anos do personagem e também como um excelente exemplar de filme de ação. Além disso, Mendes ainda mostra um grande apuro visual, habilidade intacta de comandar atores e, sem dúvida, qualidades suficientes para continuar como diretor dos próximos filmes da franquia. E também não dá para falar de "007 – Operação Skyfall" sem mencionar a música-tema de Adele. Embalando os créditos iniciais mais interessantes dos recentes filmes de Bond, a canção Skyfall também diz muito sobre o filme: ela é escrita e interpretada por uma cantora jovem, mas é, na realidade, uma homenagem aos velhos tempos do agente secreto. Mais uma vez, passado e presente se entrelaçam nesse filme que não deixa os detalhes de lado.
O futuro decepciona porque nele somos sempre felizes e vitoriosos, diz a personagem vivida por Samantha Morton. Porém, o futuro não decepciona Eric Packer (Robert Pattinson), jovem bilionário de Nova York. Não decepciona porque ele simplesmente não pensa no futuro. Para Packer, o que importa é o momento: a próxima conversa, a próxima transa, o próximo corte de cabelo. E a estrutura de "Cosmópolis" é basicamente essa: várias situações e personagens isolados que moldam o mundo e a personalidade do protagonista. A cada cena e a cada diálogo, descobrimos um pouco mais sobre ele. Cosmópolis, assim, pode ser considerado um road movie passado nas ruas da Big Apple. Tudo, claro, com um jeito muito David Cronenberg – cujo último filme, "Um Método Perigoso", ficou devendo nesse aspecto.
Passado boa parte dentro de uma luxuosa limusine, "Cosmópolis" tem sua principal força nos diálogos, que levantam questões como o domínio do capitalismo, a instantaneidade dos dias atuais e a alienação trazida pela internet. Eric Packer é um sujeito que tem tudo ao seus pés mas que, por outro lado, não sabe o que fazer da vida. Ou seja, um retrato da geração atual. A limusine de Packer ainda é uma metáfora do que a internet provoca: tudo em um único lugar, mas, ao mesmo tempo, nada que desperte atitude ou a vontade de sair do comodismo. Sem falar, claro, da falta de verdadeiro contato humano. E Cronenberg desenvolve todas essas questões sem nunca parecer forçado. São diálogos que, apesar de didáticos e engessados, conseguem ser dinâmicos e, acima de tudo, questionadores.
Junto com a eficiente fotografia de Peter Suschitzky (constante colaborador do diretor), Cronenberg transmite toda a mecânica, frieza, e racionalidade dos dias atuais com uma notável sobriedade: a limusine de "Cosmópolis" alcança o nível certo de claustrofobia, os planos fazem um ótimo diálogo com o texto e todas as cores ajudam a levar o espectador para dentro do cotidiano do protagonista. É o ótimo retrato de um personagem que precisa procurar qualquer tipo de estímulo para se sentir vivo (mesmo que seja necessário apelar para a violência) e que, apesar de esbarrar com tantas pessoas, parece não se conectar com ninguém. E, nesse sentido, os coadjuvantes fazem um excelente trabalho. Não precisamos saber quem eles são, o que importa é o que eles acrescentam à proposta de "Cosmópolis".
Todo esse resultado, porém, vai todo por água abaixo a partir da metade. E não é nada relacionado ao péssimo desempenho de Robert Pattinson (que aqui até nem incomoda tanto porque, justamente, seu jeito robótico tem tudo a ver com o clima do filme), mas sim com o roteiro. Quando Cosmópolis abandona o verbal e começa a investir nas situações fora da limusine, na movimentação e na necessidade de uma história de fato – com direito a tiros, sangue, etc -, o resultado começa a perder força. Essa escolha divide "Cosmópolis". São dois filmes dentro de um: o primeiro cheio de desenvoltura e o segundo mais prático, apoiado na necessidade de ação (seja ela verbal ou física) para dar um fechamento ao que tinha sido mostrado até então. "Cosmópolis", então, ao meu ver, cai minuto a minuto depois dessa “divisão”. Cronenberg tem estilo e isso não podemos negar – sem falar que, aqui, nunca esquecemos que estamos diante de um filme dele – só é uma pena que as questões levantadas por ele, no final, terminem mais interessantes que o fechamento e a execução em si.
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Colunista : Cinéfilo e blogueiro irremediável desde o encontro com “As Confissões de Schmidt”.
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