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crítica de O Voo


por Clênio Viégas, 14 de fevereiro de 2013

Levando-se em consideração que a filmografia de Robert Zemeckis inclui a trilogia "De Volta Para o Futuro", o revolucionário "Uma Cilada Para Roger Rabbit" e o megapremiado "Forrest Gump - O Contador de Histórias" - e que desde "Náufrago", de um distante ano 2000 ele não brindava seu público com filmes em live-action - não deixa de ser surpreendente ver seu nome assinando "O Voo", uma produção simples, honesta e humana e que, excetuando-se uma tensa sequência que mostra um acidente aéreo, prescinde de efeitos visuais e artifícios estilísticos. Depois de uma sucessão de trabalhos cujo visual importava mais do que o conteúdo, o mais bem-sucedido discípulo de Steven Spielberg marca sua volta de maneira discreta mas bastante eficiente. Com uma renda de mais de 90 milhões de dólares no mercado americano - contra seu custo relativamente baixo de 30 milhões - "O Voo" ainda conseguiu agradar à crítica e à Academia de Hollywood, que o brindou com duas indicações ao Oscar: roteiro original e ator - Denzel Washington em uma atuação bem mais contida do que o normal.
Afeito à personagens heroicas e/ou arrogantes, Washington se sai notavelmente bem em um papel que foge de sua zona de conforto. Whip Whitaker, o piloto de aviões alcóolatra e viciado em drogas que consegue milagrosamente evitar uma tragédia de grandes proporções e depois se vê acossado por seus superiores e pela própria consciência é uma das melhores personagens de sua carreira nos últimos anos, lhe proporcionando a chance de explorar nuances de seu talento até então escondidos sob uma camada de exarcebada autoestima. Poucas vezes o público viu Denzel tão frágil e inseguro e esse risco - talvez calculado, mas eficiente - é a maior qualidade do filme, que, mesmo mantendo o interesse da plateia até seu final, não consegue deixar de esbarrar em alguns clichês. Nada, porém, que atrapalhe o resultado final.
Dirigido com firmeza e sutileza por um Robert Zemeckis de volta à sua atenção às personagens e seus atores - qualidade que lhe rendeu um Oscar por "Forrest Gump" e que sempre ficou muito em evidência em seus trabalhos, mesmo os menos sérios - "O Voo" é, na verdade, totalmente centrado na figura de Whitaker, um homem em constante luta contra seus fantasmas que, depois do desastre do avião que pilotava (mesmo calibrado de álcool e cocaína) vê suas certezas abaladas e tenta reencontrar seu caminho - e sente-se pressionado por uma investigação que pode dar fim à sua carreira. Zemeckis acerta em centrar a trama nas costas capazes de Washington, mas de certa forma isso acaba deixando de lado algumas possibilidades interessantes - como sua relação com a jovem viciada Nicole (Kelly Reilly), tratada de forma um tanto desajeitada pelo roteiro. Sem ter muito onde apoiar-se - até mesmo as cenas de tribunal soam apenas corretas e não empolgantes - resta ao ator (indicado ao Oscar, mas sem muitas chances de vitória) dar seu show particular, o que com certeza agrada a seus fãs e até mesmo a seus detratores, que podem ver aqui uma outra face.
"O Voo" é um belo drama, dirigido com competência e estrelado por um ator em um grande momento. Pode não ser execpcional ou inesquecível, mas cumpre o que promete sem aborrecer ao espectador. Em tempos de obras ambiciosas e morosas como os louvados "Lincoln" e "Os Miseráveis", isso não deixa de ser um alívio.

 

crítica de As Aventuras de Pi


por Clênio Viégas, 5 de fevereiro de 2013

Quando a mania de filmes em 3D tornou-se uma realidade - em especial depois do impressionante êxito comercial de "Avatar", de James Cameron - o público foi praticamente soterrado de produções de resultados sofríveis, que utilizavam a ferramenta apenas para ganhar mais dinheiro, em detrimento de qualquer preocupação com outros fatores que também fazem de ir ao cinema uma experiência única, como roteiro, atuações e até mesmo bom-senso. Dezenas de blockbusters erraram a mão em suas tentativas de conquistar os espectadores exigentes, concentrando-se mais nas bilheterias do que na qualidade de seus produtos. Se por um lado isso deixou bem claro que orçamentos milionários não bastam para transformar lixo cinematográfico em em bons filmes, também mostrou que, aliada ao talento de cineastas realmente criativos e inteligentes, a tecnologia pode muito bem agregar emoção e encanto ao resultado final de uma obra. Martin Scorsese fez isso com perfeição em "A Invenção de Hugo Cabret" - que lhe deu a oportunidade de homenagear o cinema em seus primórdios. E agora Ang Lee também brinca com as possibilidades do formato com o belíssimo "As Aventuras de Pi" - que pode lhe render um segundo Oscar de direção.
Baseado em um romance de Yann Martel - por sua vez inspirado no nacional "Max e os felinos", escrito por Moacyr Scliar - "As Aventuras de Pi" é narrado de forma poética e lírica por Lee, um cineasta capaz de emocionar sem apelar para o sentimentalismo barato (que o digam as pessoas que saíram aos prantos das salas de exibição depois de "O Segredo de Brokeback Mountain", por exemplo). Com pleno domínio da arte cinematográfica, o diretor oriundo de Taiwan seduz a plateia com um visual arrebatador - a fotografia é deslumbrante e pode abocanhar uma estatueta dourada - e uma técnica invejável, mas jamais perde o foco da história que quer contar. Por mais que o público fique extasiado com as cenas criadas por ele - com auxílio de CGI, naturalmente, mas de forma tão sutil que parece real - em momento algum a técnica sobrepõe-se à emoção. Assim como em "O tigre e o dragão" as coreografadas lutas nunca eclipsavam os relacionamentos interpessoais entre as personagens, em "As Aventuras de Pi" tudo serve à história, sem nenhum tipo de gratuidade.
Apesar de ter sido vendido como "a hístória de um rapaz indiano que sobrevive a um naufrágio e fica perdido no mar dentro de um bote, contando apenas com um tigre-de-benagala como companhia", o filme de Ang Lee é bem mais do que isso. Basta dizer que o tal naufrágio que dá o empurrão inicial para tais aventuras só acontece depois de 40 minutos de projeção. Antes disso, o roteiro faz questão de não ter pressa em contar a infância e a adolescência de seu protagonista, Piscina ou simplesmente Pi (Suraj Sharma), um jovem que mora com a família, proprietária de um zoológico. Até que todos decidam abandonar seu país de origem e embarcar para o Canadá - todos em termos, já que o rapaz não tem a menor vontade de abandonar sua vida e seu grande amor - o cineasta conta sua história de forma tranquila e encantadora. Depois da reviravolta da trama - com o acidente com o navio e a morte de todos os seus tripulantes - a magia acontece. Primeiramente tendo que dividir seu bote com o tigre, um orangotango, uma zebra e uma hiena, Pi chega à conclusão que precisa aprender a conviver com os animais - e também testemunhar sua luta pela sobrevivência.
Mesmo que a sinopse pareça um tanto chata e sem muitos atrativos senão o visual espetacular, "As Aventuras de Pi" surpreende principalmente por manter um ritmo admirável, que impede a plateia do tédio que poderia surgir. Narrada por Pi em sua maturidade para um jovem escritor, a trajetória do menino tornado homem pela experiência única chega a seu final com vastas possibilidades de emocionar o espectador, especialmente por tratá-lo com inteligência e sensibilidade. Fascinante e belo, é um dos poucos filmes indicados ao Oscar principal deste ano que realmente merece estar na lista final.

 

crítica de Os Miseráveis


por Clênio Viégas, 1 de fevereiro de 2013

Em 2004, quando todo mundo acreditava que "O Fantasma da Ópera" repetiria nas telas de cinema o sucesso acachapante que fazia há anos nos palcos da Broadway e do mundo, veio Joel Schumacher com sua falta de talento para a missão e destruiu um dos maiores ícones musicais da história, escalando um elenco inadequado e deixando toda e qualquer criatividade de lado, transformando tudo num espetáculo aborrecido - ainda que plasticamente admirável. E não é que a mágica se repetiu? Não aprendendo com os erros do passado recente, Hollywood voltou à carga e conseguiu fazer da transposição de "Os Miseráveis" - musical de Claude-Michel Schonberg baseado no romance de Victor Hugo - um dos filmes mais insuportavelmente chatos dos últimos anos. Dirigida (força de expressão) pelo péssimo Tom Hooper - comprovando a mediocridade com que acenava já em seu superestimado "O Discurso do Rei" - a adaptação comete tantos erros que fica díficil saber por onde começar.
Primeiro vem a questão que vem incomodando os estudiosos desde a estreia londrina da peça, em 1985: por que transformar um dos maiores e mais importantes clássicos da literatura mundial em musical? Diluindo a forte crítica social da obra de Victor Hugo, o espetáculo conquistou o público condensando o vasto trabalho de Hugo em números musicais que contavam - da forma alegórica e exagerada típica do formato - a trágica história de meia dúzia das inúmeras personagens do romance. Sendo assim, a doce Fantine perde o emprego, torna-se prostituta, vende até mesmo os cabelos e se vê afastada da filha pequena cantando. O injustiçado Jean Valjean é preso por roubar comida, sofre horrores na prisão e é perseguido pelo incansável Javert soltando o gogó. E os demais miseráveis que sofrem na pele as diferenças sociais da França do século XIX - sejam importantes ou meros figurantes - comentam seu sofrimento em forma de rimas muitas vezes insuportáveis.
Depois vem então o manancial de erros da versão cinematográfica capitaneada por Hooper - que talvez seja o primeiro e maior equívoco de todos, dada a sua perceptível incapacidade de dirigir um filme desse porte, com enquadramentos pobres e uma falta de ritmo que chega a irritar. Medíocre e sem personalidade, sua direção esbarra em um roteiro que não sabe o significado da palavra "adaptação", acreditando que ser fiel ao material original é o bastante para conquistar o público, sem importar-se com o fato óbvio de que existe uma imensa diferença de linguagem entre teatro e cinema que só consegue ser ultrapassada quando existe inteligência na equação - que o diga Rob Marshall, que fez de "Chicago" um belíssimo filme, que sobreviveria muito dignamente mesmo sem sua origem teatral. Sem a mesma sutileza e senso de ironia de Marshall - que por sua vez errou a mão em "Nine" mais por ambição do que por falta de talento - Hooper é apenas uma abelha-operária sem brilho que não consegue nem ao menos tirar proveito do elenco que tinha em mãos.
Que Hugh Jackman é um bom ator todo mundo sabe, mas que ele também canta e dança somente os espectadores da peça "The boy from Oz" sabiam por experiência própria - e aqueles que descobriram isso com sua atuação aqui talvez fiquem decepcionados. Mesmo que esteja dramaticamente apropriado na sua interpretação de Jean Valjean - o heroi da história - o eterno Wolverine se vê prejudicado por canções que não combinam com sua voz e timbre, o que resulta desastroso em alguns momentos. Anne Hathaway até emociona em sua curta participação - em parte porque foi brindada com a canção mais conhecida da obra, "I dreamed a dream", em parte porque realmente é boa atriz e consegue se desvencilhar das limitações de uma direção morna. Mas é Russell Crowe quem decepciona mais. De tipo físico apropriado a Javert - policial que persegue Valjean de forma obsessiva por anos e anos - o ator neozelandês faria misérias em uma adaptação convencional, mas quando começa a cantar é de um constrangimento inominável. Até mesmo sua cena final tem o impacto anulado tamanha sua falta de jeito para o que lhe é exigido.
Por outro lado, não podemos deixar de falar das flores. Toda a parte técnica de "Os Miseráveis" é de primeira linha - como não poderia deixar de ser em uma produção de seu porte. A fotografia, a direção de arte e o figurino são lindos (talvez até demais para um filme que fala sobre miséria social). E, bem ou mal, Jackman e Anne Hathway mereceram suas indicações ao Oscar, até mesmo por superarem a qualidade discutível do filme em si. Mas conseguir chegar até o final da longa projeção sem dar uns bons bocejos ou fazer uma pausa para um cochilo é façanha de heroi. "Os Miseráveis" é de chorar, mas não pelos motivos certos.

 

crítica de O Lado Bom da Vida


por Clênio Viégas, 28 de janeiro de 2013

Ao contrário do que quer fazer a Academia de Hollywood, o cineasta David O. Russell está longe de ser um novo gênio do cinema, capaz de duas indicações ao Oscar de diretor em três anos. Artesão competente, ele conseguiu fazer rir da guerra do Iraque quando ela ainda estava fresquinha na mente dos americanos - no ótimo e esquecido "Três Reis" -, assinou o inclassificável "Huckabees - A Vida É Uma Comédia" e entregou o apenas correto "O Vencedor", que lhe colocou entre os finalistas do Oscar de 2011 (no lugar de um espetacular Christopher Nolan), mas nunca ultrapassou aquele limite que separa os contadores de histórias eficazes dos mestres do ofício. Por isso, se não fosse a exímia máquina marqueteira dos irmãos Weinstein (ex-proprietários da Miramax Pictures, empresa que, na década de 90 transformou o cinema independente em mainstrean), seu novo filme, a comédia romântico/dramática "O Lado Bom da Vida" não passaria de alguns merecidos elogios à uma generosa lista de indicações ao Oscar deste ano (uma lista que inclui melhor filme, diretor, roteiro e os quatro atores). Se por um lado seu novo trabalho é simpático e agradável, por outro ele não escapa de mergulhar em clichês e só é realmente notável por seu elenco - que dá a Robert De Niro seu primeiro papel decente em anos e revela em Bradley Cooper uma competência apenas ensaiada em seus filmes anteriores.
Adaptado de um romance de Matthew Quick, "O Lado Bom da Vida" começa muito bem, mostrando a volta do professor Pat Solitano (Bradley Cooper) ao lar, depois de um tempo em um hospital psiquiátrico. Logo de cara o público já percebe a animosidade que existe entre Pat - que saiu do hospital talvez cedo demais - e seu pai aposentado (Robert De Niro). Não fica claro, porém - propositalmente - os motivos que o levaram à sua crise e à separação da esposa, a quem ele tem esperanças de reconquistar. No caminho para sua reconciliação, Pat conhece uma vizinha, Tiffany (Jennifer Lawrence), recentemente viúva e desempregada (por ter dormido com todos seus colegas de trabalho) que lhe ajudará em sua missão e, no caminho, vai redescobrir a autoestima.
Depois do começo promissor, no entanto, o filme de Russell cai na armadilha dos clichês. A tensão entre Pat e Tiffany - responsável por uma ótima cena em um restaurante que descamba para uma violenta discussão no meio da rua - se dilui na tentativa do roteiro de conquistar o público da maneira mais preguiçosa possível. A relação dos protagonistas - que apontava para um estudo sério e honesto (ao menos dentro do padrão hollywoodiano quando se trata de problemas mentais) - logo vira uma historinha de amor rasa e inverossímil, que culmina em um concurso de dança que parece só estar ali para criar uma sequência bonitinha mas sem muito sentido.
Salva-se, por outro lado, o elenco escolhido pelo diretor. Sem dúvida, Russell é um cineasta que, a despeito de sua pouca criatividade, tem profundo conhecimento em sua relação com os atores. Deu Oscar a Christian Bale e Melissa Leo por "O Vencedor" e pode ajudar Jennifer Lawrence a levar uma estatueta este ano: Lawrence, a nova queridinha da Academia, está bem, mas entre convencer na pele de uma jovem desequilibrada e merecer ganhar um Oscar vai uma grande distância. O mesmo pode ser dito sobre Bradley Cooper, surpreendendo com uma atuação visceral e intensa, mas que só despertou admiração por ter revelado nele um ator competente - fato que as comédias insossas que estrelou antes escondia com eficácia. Jacki Weaver, como a mãe de Pat, arrancou uma indicação inesperada ao prêmio de atriz coadjuvante e tem poucas chances, mas é Robert De Niro quem é, definitivamente, o maior destaque do filme: há muito tempo o grande ator não tinha chance de mostrar o quão bom é, e basta uma cena com Cooper (em que revela seu amor pelo filho) para que tenha sua lembrança pela Academia justificada.
"O Lado Bom da Vida" é um filme comum. Bom, sem dúvidas, mas destinado ao esquecimento em poucos anos. É mais uma prova do poder dos irmãos Weinstein dentro da indústria do cinema americano do que exatamente um grande trabalho cinematográfico.

 

crítica de Lincoln


por Clênio Viégas, 25 de janeiro de 2013

Se hoje os EUA tem um presidente negro, muito se deve agradecer à Abraham Lincoln, que, em 1865, às vésperas do final da Guerra de Secessão (confronto entre o Sul escravagista e o Norte abolicionista), usou de todo o seu poder de persuasão - e mais alguns outros talentos políticos - para fazer com que fosse aprovada a 13ª Emenda, que abolia a escravatura em todo o território norte-americano. Um dos mais respeitados e admirados comandantes da história da nação, é ele o protagonista do filme que tem tudo para dar ao cineasta Steven Spielberg seu terceiro Oscar de diretor. Indicado a doze estatuetas - e favorito em boa parte das categorias - "Lincoln" vem sendo unanimente elogiado e louvado especialmente pela crítica ianque, que vê nele todas as qualidades que deram a Spielberg o prestígio que ele tem na indústria do cinema. É impossível não perceber nessas loas todas, porém, uma generosa dose de ufanismo. Esplendidamente produzido, o filme estrelado por um impecável Daniel Day-Lewis (também em vias de ganhar um terceiro Oscar) é irrepreensível em termos visuais e técnicos, mas esbarra em um sério problema: quem não tem um vasto conhecimento da História dos EUA é bem capaz de ficar perdido diante de tantos nomes e detalhes que desfilam pelo roteiro de Tony Kushner.
Entre os inúmeros acertos de "Lincoln" está, sem dúvida, a opção de Spielberg em recriar apenas um período crucial na vida do presidente, ao invés de contar toda a sua vida. Focando-se nos meses em que a campanha pela 13ª Emenda estava a todo vapor, o roteiro pode também se dedicar a algumas personagens secundárias interessantes e dramaticamente bem construídas, como é o caso da primeira-dama Mary Todd (uma Sally Field mais velha do que a personagem, que lhe dá todas as chances de uma atuação que beira o melodrama e lhe rendeu uma fortíssima indicação ao Oscar de coadjuvante) e do político Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones, também com boas chances de levar um prêmio da Academia): Mary Todd tem que lidar com a perda de um filho e as possibilidades de ver outro (Joseph Gordon-Levitt) embarcando para a guerra, além de uma doença nervosa que a acompanha há anos e Stevens é um abolicionista com boas razões para tal (reveladas no final do filme de forma delicada e surpreendente). O roteiro também não se furta a apresentar várias e longas cenas em que a Emenda é amplamente discutida, assim como as táticas para que ela seja aprovada. São cenas bem dirigidas e bem interpretadas, mas que carecem do ritmo que o cineasta sempre imprimiu a seus trabalhos anteriores. São nessas cenas, por exemplo, que outros brilhantes atores dão seu show, como é o caso de Hal Holbrook, David Strathairn, John Hawkes e James Spader, todos pontuando o espetáculo que é a interpretação de Daniel Day-Lewis.
Assumindo um papel que hesitou por um bom tempo em aceitar, Day-Lewis entrega à plateia uma assombrosa atuação, que incorpora o gestual, a voz e até mesmo a personalidade carismática e simples do presidente Lincoln, um homem que tinha como seu maior trunfo o dom das palavras e a gigantesca empatia que lhe garantiu um segundo mandato, encerrado tragicamente com seu assassinato em um teatro pouco depois da votação da Emenda - sequência que Spielberg prefere não explorar em demasia, como prova de sua maturidade e sobriedade. Aliás, são justamente essas qualidades que fazem com que o filme sofra de um mal que muitos críticos não citaram: ao optar por uma narrativa séria e adulta, o cineasta abdica de uma característica essencial de sua obra pregressa - a emoção - e entrega um filme belissimamente dirigido, mas que prescinde de uma empatia maior com uma audiência que não veja em seu protagonista o superhumano visto por seus conterrâneos. Para quem não é norte-americano, a história de Lincoln - mesmo que sua luta pelos direitos de igualdade entre negros e brancos seja parte essencial da história da humanidade como um todo - não é tão emocionante, ficando quase ofuscada pela fotografia esplêndida de Janusz Kaminski e pela reconstituição de época irretocável.
Sendo um filme americano feito para americanos sobre um grande americano, "Lincoln" é, sem dúvida, o grande favorito ao Oscar, que, por mais cosmopolita que tente parecer, ainda é um prêmio da indústria americana. Não é o melhor entre os indicados, mas sua vitória seria no mínimo coerente.

 

Um Filme por Dia

Coluna : Filmes e mais filmes.... novos e antigos. De qualquer época. De qualquer país. Se me tocou de algum jeito, está aqui.

Colunista : Ex-estudante de jornalismo, aspirante a dramaturgo, fã de cinema, teatro, literatura e boa música.

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