Alguns filmes partem de uma premissa intrigante e original mas acabam tropeçando em sua execução, desperdiçando a chance de se tornarem memoráveis. E não somente, em consequência da oportunidade perdida, surge a impressão de um vazio o qual jamais será possível preencher. Afirmações do tipo "Esse material na mão de fulano teria sido melhor aproveitado." são comuns nesses casos. Observações compreensíveis porém injustas, afinal, a criação do conceito é mérito dos próprios cineastas. "Cube" ("Cubo"), de 1997, possui um eficiente prólogo em que um sujeito acorda em um sala vazia e silenciosa, cujos pontos mais chamativos são escotilhas, uma em cada um dos 6 lados, que levam à salas quase idênticas em aparência. O que ele vai descobrir empiricamente é que a grande diferença entre elas é que algumas possuem armadilhas letais. Ao investigar uma sala adjacente ele é picotado em, veja só, cubos! Tem início uma história que mescla suspense psicológico, ficção científica, terror e que é também, à sua maneira, um "road movie". De fato, considerando o status quo não explicado, a "necessidade" de se trilhar um percurso e o final em aberto das películas, "Cube" se assemelha mais à "The Road" ("A Estrada") do que à "Saw" ("Jogos Mortais"), o qual especula-se que tenha sido influenciado por essa produção canadense que, por sua vez, pode ter tido como ponto de partida o ainda melhor "The Cube", episódio do programa "NBC Experiment in Television", transmitido em 1969.
Mais 6 pessoas (e essa já é a segunda vez que esse número figura aqui!) se encontram nessa prisão inusitada sem se lembrar das últimas horas e logo formam um grupo para, antes de descobrirem o porquê, quem, como e onde, acharem uma saída, pois não há nenhum sinal de água ou comida. Quase todos os prisioneiros parecem ter sido selecionados para desempenhar um papel bem definido para que a recém-formada equipe tenha sucesso: há um policial (que logo assume a posição de líder), uma médica, um criminoso que já escapou de diversas penitenciárias e até uma estudante com habilidades incomuns em matemática sobre a qual residem as esperanças de decifrar como os números identificadores de cada sala indicam a presença de armadilhas e, ao mesmo tempo, o caminho até a saída. Essas investidas nessa ciência exata estão dentre os momentos mais saborosos do filme, a matemática constitui um obstáculo complexo o suficiente para desafiar os personagens ao mesmo tempo em que mantem instigado o público leigo, apesar da dificuldade em acompanhar toda a lógica envolvida. E nem mesmo minha desconfiança de que não seja possível extrair tanta informação de tão poucos algarismos estraga esse prazer.
Antes do sucesso dos reality shows, Vincenzo Natali, co-roteirista e diretor, explora como pessoas em geral sob controle podem se alterar quando confinadas juntas de estranhos, a volta do ser humano à um estado primitivo em situações extremas. Uma pena não tê-lo feito de maneira orgânica. Os indícios ao longo da história do caráter duvidoso de um sujeito não são suficientes para tornar convincente sua conversão em potencial estuprador, assassino com direito a retorno do mundo dos mortos. Com efeito, o grande erro do filme é sacrificar a plausibilidade dos diálogos e dos fatos apenas para aumentar o suspense ou para se ter uma oportunidade de assustar a plateia. Por exemplo, um encarcerado que salva a vida de um companheiro apenas para poucos segundos depois matá-lo. Uma mão ensanguentada que sem razão (ao menos no universo do filme) se move lentamente. Ou ainda, a maneira artificial com que é fornecido um conselho envolvendo "manter o fluxo de saliva". Por outro lado, nota-se alguns esforços para aproximar-se da realidade, como a pausa para dormir, que também gera um interessante efeito anti-climático (ou talvez melhor definido por pré-climático). A bem-vinda aposta de investir mais na relação entre personagens do que em efeitos especiais é prejudicada por diálogos por vezes banais e atuações majoritariamente fracas, embora, deva-se reconhecer que os atores tem pouco em que se ancorar diante do desértico cenário (em uma escala improvisada no momento em que escrevo, coloco-o apenas um nível acima do CGI). A qualidade da atuação decorre do baixo orçamento da película que, em contrapartida, viabilizou seu sucesso financeiro. Aliás, para todo o filme, foi construído um único cubo inteiro e parte de outro para os enquadramentos que incluem duas salas!
Demonstrando um cuidado da produção com detalhes, e provavelmente deixando uma pista para o significado do Cubo, todo personagem teve seu nome extraído de uma prisão: Alderson, Holloway, Quentin, Rennes, Kazan, Leaven e Worth (na verdade, os dois últimos estão relacionados ao mesmo presídio: Leavenworth, nos EUA). E a minúcia não para por aí, notória pela agressividade acima do comum de seus detentos San Quentin batiza o mais violento integrante do Cubo, Worth ("valor") questiona sua própria relevância além de ter seu nome usado em dois trocadilhos e Leaven, cujo significado enquanto verbo é “permear algo com leveza, humor” é justamente a pessoa mais agradável do grupo, cabe a ela trazer um certo alívio ao espectador em meio a tanta tensão. Outro aspecto bem trabalhado é o uso das cores das salas. Enquanto momentos de otimismo ocorrem em cubos de cores frias, por exemplo, quando supostamente são desvendados enigmas essenciais à sobrevivência, as discussões mais acaloradas e explosões de violência acontecem principalmente em ambientes vermelhos, como o qual Worth revela que sabe bem mais sobre o Cubo do que seus colegas e onde se passam o conflito final e a morte do já citado prelúdio. As cores também servem ao propósito básico de aumentarem no espectador a sensação de locomoção do grupo uma vez que são elas a única diferença visível entre as salas. E são as mesmas, juntamente com a dinâmica das peças/salas e o fato de comporem quebra-cabeças, que fazem associação direta entre esse gigante labirinto e o Cubo de Rubik tradicional: azul, verde, branco e vermelho são pontos em comum e âmbar está situado exatamente entre laranja e amarelo, as duas cores que completam o popular brinquedo. E se venho tratando o Cubo em letras maiúsculas é porque ele é um personagem, tridimensional inclusive (sim, esse trocadilho foi intencional, perdão), com seus segredos, suas paredes estranhamente belas, emitindo barulhos orgânicos que por vezes complementam a fala ou o pensamento de um cativo seu e até mesmo cometendo assassinatos, afinal, "não há ninguém no comando".
"Cube" ainda possui um final corajoso, daqueles que desagradam boa parte do público, sedenta por explicações e conclusões amarradas. Entre óbvias especulações lançadas sobre as motivações por trás do cárcere como alienígenas, um ricaço excêntrico, militares, o mais próximo de uma revelação fornecida pelos cínicos realizadores é apenas que o Cubo está funcionando porque ele foi feito, para não admitir-se que implementá-lo foi um erro. Isso pode soar absurdo para ouvidos desatentos para o fato de que o mundo é governado por corporações, para as quais admitir erros é a última opção, pode significar falência. Foi sim uma saída ao mesmo tempo esperta, pois qualquer solução diegética muito detalhada para algo tão insólito dificilmente soaria convincente, e instigante ao demandar interpretação, direcionando o espectador a enxergar: o Cubo é uma alegoria. Pode-se extrapolá-lo tanto para a sociedade como até mesmo para a vida e suas questões existenciais, na qual figuramos sem ser consultados, sem saber de onde viemos, para onde vamos e tampouco o que encontraremos entre o nascimento e a morte. O fato de Worth ter trabalhado no projeto do Cubo sem ter conhecimento do produto final, sem sujar as mãos, é fruto da alienação que o trabalho vem causando em um número maior de pessoas, gente que não enxerga que os mesmos possuem importância mas também exigem responsabilidades e não veem como exatamente se encaixam nas engrenagens sociais. Construída por todos, a sociedade ganha vida própria, sai do controle e massacra seus integrantes que ficam sem saber a quem imputar suas misérias.
Há uma prequel, "Cube Zero" ("Cubo Zero"), além de uma sequência, "Cube 2: Hypercube" ("Cubo 2: Hipercubo"), onde são feitas revelações sobre os mistérios lançados nesse momento inicial mas trata-se de outro projeto, novos criadores, nada planejado na concepção do primeiro filme. O que me leva pensar que talvez a sensação de vazio citada no início do texto seja inapropriada, a indústria do cinema (sim, esse é um termo asqueroso, porém, real) continua a girar e nos surpreender, tal qual o misterioso Cubo.
Segundo a revista americana Variety, o astro japonês Ken Watanabe que conquistou Hollywood em filmes como "The Last Samurai" ("O Último Samurai") e "Batman Begins" vai participar do remake de "Unforgiven" ("Os Imperdoáveis"), aclamado faroeste de 1992. O papel de Watanabe será de um guerreiro japonês aposentado que retorna para uma última missão, equivalente ao de Clint Eastwood no longa original, do qual também foi diretor.
Refilmagens envolvendo filmes de cowboys e de samurais vem de longa data, porém no caminho oposto, quando "Shichinin no samurai" ("Os Sete Samurais") e "Yôjinbô" ("Yojimbo - O Guarda-Costas") serviram de base para "The Magnificent Seven" ("Sete Homens e um Destino") e "Per un pugno di dollari" ("Por Um Punhado de Dólares"), respectivamente. Aliás, foi com esse último, que Eastwood despontou para o estrelato no cinema.
"Yurusarezaru mono" ("imperdoável" em japonês), a ser lançado em 2013, é um projeto da Warner Bros. e terá direção de Lee Sang-il.
Pense o quanto é desafiador representar um filme em somente uma imagem. Geralmente, isso é feito através de uma cena extraída da própria película e por mais que ela seja carregada de significado e simbolismo, sozinha, ela não consegue informar qual o ritmo, as cores predominantes e os momentos de ação do filme. Foi justamente pensando em obter uma representação gráfica única para cada obra da sétima arte a partir de suas características que Frederic Brodbeck criou o cinemetrics.
Através de diferentes softwares o filme é, resumidamente, transformado em um quase anel (ele não chega a fechar) cujo diâmetro é proporcional à sua duração. A cada dez planos sofre uma divisão, formando um segmento que possui as cores contidas no trecho, uma extensão perimetral de acordo com sua duração e uma extensão diametral de acordo com a quantidade de movimento que suas cenas possuem. O vídeo deixa o processo mais claro, principalmente ao usar "O Iluminado" como exemplo.
É bastante interessante usar as imagens como fonte de comparação entre obras, sejam elas pertencentes a um mesmo gênero, original e refilmagem e/ou de diferentes épocas do cinema. Frederich propõe até mesmo que se escolha que filme assistir a partir de sua "impressão digital"!
A "impressão digital" exibida ao lado é a de "2001: Uma Odisséia no Espaço".
Mais informações: http://cinemetrics.fredericbrodbeck.de/
Sim, a cerimônia do Oscar aconteceu há duas semanas e já não faz parte das rodas de conversas dos amantes de cinema. Porém, isso não significa que os efeitos da maior premiação da sétima arte não possam mais ser sentidos, em especial, nas bilheterias. Por exemplo, é bem possível que “O Artista”, que não atraiu grande público para as salas escuras, já tivesse saído de cartaz, caso não tivesse se sagrado o grande vencedor desse ano. Por outro lado, grandes filmes acabam tendo sua exibição encerrada mais rapidamente por não terem tido um desempenho tão bom, isso quando são lembrados na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E é exatamente por esse motivo que acho válido lembrar aos leitores mais desatentos que, infelizmente, o Oscar está longe de escolher seus vencedores apenas por méritos artísticos, não sendo, portanto, um selo de qualidade. Para isso, não fiz uma lista do tipo top 5 e que contenha filmes que concorreram na principal categoria mas que, imerecidamente, não levaram o homenzinho dourado, caso de “O Segredo de Brokeback Mountain”. Apenas reuni, dentre vários, filmes que nem sequer figuraram entre os indicados a melhor filme do ano! Alguns são até melhores do que o laureado da respectiva edição do Oscar.
“Dogville”
Ser inovador não é, e nem deve ser, o suficiente para um filme ser considerado bom. Mas “Dogville” é excelente em todos os aspectos e a Academia errou feio ao ignorar um filme que imediatamente escreveu seu nome na história da sétima arte. Deve ter pesado o fato do filme ser considerado uma crítica ao “american way of life”, o que não ameniza em nada o equívoco.
“Batman - O Cavaleiro das Trevas”
Temendo perder popularidade (leia-se, principalmente, audiência mas até mesmo relevância), a Academia vem fazendo tentativas de se aproximar do público mais jovem, como indicam a escolha de Anne Hathaway e James Franco como apresentadores em 2011 e a presença de “Avatar” como favorito em 2010. Uma atitude bem mais feliz, teria sido incluir o Homem-Morcego no páreo de 2009.
“Sinédoque, Nova York”
Tudo bem, esse aqui entrou na lista muito mais por uma opinião pessoal do que por uma percepção geral da comunidade cinéfila. O primeiro trabalho de direção de Charlie Kaufman já não possui apelo comercial e tendo ainda dividido a crítica, perdeu totalmente suas chances de ser lembrado na grande premiação do cinema. O que não faz com que ele deixe de ser uma obra infinitamente superior ao vencedor “Quem Quer Ser um Milionário?”.
“O Lutador”
Atuações impecáveis, excelente canção de Bruce Springsteen, grandioso nos detalhes...Imperdoável. O terceiro filme da lista relativo ao Oscar 2009, um ano realmente injusto, ou, recorrendo a um eufemismo, concorrido. Vale lembrar, os indicados daquele ano foram, além do já citado ganhador, “Milk - A Voz da Igualdade”, “Frost/Nixon”, “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “O Leitor”. E apesar do espetacular desempenho de Mickey Rourke não ter sido esquecido, quem ficou com a estatueta foi Sean Penn. Outra falha!
“Melancolia”
Apesar desse ano não ter sido dos mais revoltantes, é claro que ele não poderia ficar de fora. O filme de Lars Von Trier também está na lista porque sua ausência levanta uma questão importante. É provável que “Melancolia” não tenha sido incluído entre os nove, eu disse nove, concorrentes a melhor filme de 2011 devido as declarações controversas de seu diretor no Festival de Cannes. E pior, até Kirsten Dunst, teria sido prejudicada por isso. Agora, o que as opiniões pessoais de um realizador, por mais estaparfúdias que sejam, tem a ver com os méritos de sua obra? O corpo da Academia possui vários membros judeus e isso não isenta-os de fazer essa separação ao votarem.
Aproveitando a onda de nostalgia que tomou conta da cerimônia do Oscar de 2012, afinal a maioria esmagadora dos indicados a melhor filme se passam no passado, Billy Crystal é o apresentador e até mesmo a decoração do local do evento será retrô, vou apostar em uma lavada de "O Artista". Além disso, tentei capturar algumas idiossincrasias dos membros da Academia. Por exemplo, quais as chances de Meryl Streep, eu disse Meryl Streep, uma atriz sendo constantemente indicada nos últimos 30 anos, enfeada por maquiagem, interpretando uma controversa figura pública não fictícia não levar o prêmio? Poucas, certamente! Não me esqueci também do irritante "sistema de compensações" da Academia; Aaron Sorkin, roteirista de "O Homem que Mudou o Jogo" venceu ano passado por "A Rede Social", por isso, considero-o carta fora do baralho em Roteiro Adaptado. Para Roteiro Original, incrivelmente, uma vitória de Woody Allen seria uma leve injustiça mas não acho que são muitos os votantes dispostos a premiar um filme em outra língua e que tem a estatueta de Filme Estrangeiro praticamente garantida. Porém, confesso que é sempre prazeroso ver Allen não comparecendo pra receber suas honrarias. Ainda não assisti os indicados na categoria de Documentário mas vou confiar no prestígio dos episódios anteriores da trilogia "Paradise Lost". Enfim, todos os meus palpites nas principais categorias:
Filme: "O Artista"
Diretor: Michel Hazanavicius
Ator: Jean Dujardin
Atriz: Meryl Streep
Ator Coadjuvante: Christopher Plummer
Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer
Roteiro Original: "Meia Noite em Paris"
Roteiro Adaptado: "Os Descendentes"
Filme Estrangeiro: "A Separação"
Animação: "Rango"
Documentário: "Paradise Lost 3: Purgatory"
Edição: "A Invenção de Hugo Cabret"
Efeitos Visuais: "A Invenção de Hugo Cabret"
Fotografia: "A Árvore da Vida"
Coluna : Filmes de ficção ou documentários, sem restrições de gênero ou de país mas preferencialmente aqueles que, de alguma maneira, se destacam em sua relação com a música.
Colunista : Engenheiro e músico amador prefere citar os filmes através de seu título original pois está a par da Conspiração dos Tradutores Brincalhões.
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